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A máscara e a liberdade

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Anastasiia Chepinska/Unsplash

Anastasiia chepinska eGjHhmC 3ww unsplash



Por Manuel Gomes*

Enquanto há governos que seguem as orientações dos especialistas de saúde, há também franjas da população que insistem em se recusar ao uso de máscaras e viseiras. Em Londres, aconteceram mesmo manifestações populares compostas por pessoas que afirmam que se recusam ao uso da máscara, ao teste e ao rastreio alegando que isso é uma violação dos direitos de cidadania.

Em torno da pandemia apareceram muitas teorias da conspiração. Desde o discurso de Bill Gates até às declarações de Donald Trump nos seus ataques à China, passando por muitas justificações díspares a circular nas redes sociais, há de tudo um pouco.

Uma coisa porém parece ser a mais razoável e essa é seguir as orientações dos especialistas da saúde como seria de seguir as opiniões de especialistas em qualquer outra actividade e se os cientistas dizem que se trata de uma pandemia, mesmo que o não fosse, o mais prudente seria seguir os seus conselhos e orientações.

Quando uma pessoa se recusa ao uso da máscara incorre no risco de ser contagiado e contagiar.

No caso de ser contagiado, este contágio decorre da sua exclusiva vontade pelo que deveria suportar as responsabilidades desse contágio nomeadamente no que se refere aos custos de tratamento.

Já no caso dessse resistente contagiar outros, o assunto assume foros de mais gravidade. Se um cidadão decidir ir espalhar um produto mortífero pelas populações nas ruas, transportes públicos ou outro local, fica claro que existe uma intenção de matar. Se alguém sair para as ruas espalhando gás pimenta ou um produto mortal, fica claro que há a intenção de matar. Ninguém vai espalhar um produto mortal se não tiver a intenção de matar e isso tem nome. Homicídio e neste caso, homicídio voluntário.

Alegam estas pessoas a sua liberdade de não usar máscara e por essa via usar a sua liberdade de viver ou morrer fazendo disso assunto privado. Esquecem, no entanto, que todas as outras pessoas têm o mesmo direito e que podem escolher ficar vivo, o que pode não lhes ser permitido se houver contacto com outra pessoa infectada. Assim, os resistentes ao uso da máscara esquecem que a sua liberdade de viver ou morrer (ser contagiado ou não) termina quando começa a liberdade de quem quer permanecer vivo.

Por outro lado, importa referir que a principal permissa do ser Humano é a luta pela vida. Vamos ao médico quando estamos doentes e fugimos quando sentimos a vida ameaçada ou rezamos quando tememos pela perda da vida. Sobreviver é a primeira função que todos os seres assumem no mundo animal a que indiscutívelmente pertencemos e é esse o instinto partilhado por esse reino.

Neste contexto, a recusa ao uso de máscara constitui desobediência não apenas à Legislação mas também ao instinto e se neste último não podemos fazer nada, já em relação à desobediência à Lei, a Lei pode actuar.

O governo britânico decretou o uso da máscara em todos os espaços fechados, pequenos estabelecimentos comerciais incluídos, mas o que se observa é a mais absoluta desobediência a esta Lei. Perante a Lei, compete aos estabelecimentos exigir aos seus consumidores que acessem os espaços com o uso obrigatório de máscara e já que não é possível, que a Justiça actue nos cidadãos dada a quantidade de prevaricadores, já o mesmo não acontece com os estabelecimentos que permitem o acesso do público sem o uso de máscara.

Da mesma forma que muitas organizações exigem a presença de grandes líderes mundiais nos tribunais de Direitos Humanos por violarem as opiniões científicas e fomentarem o contágio de que são casos flagrantes, Donald Trump, Jair Bolsonaro e Boris Johnson, o mesmo deveria acontecer com as empresas de porta aberta ao público que permitem o acesso dos clientes sem qualquer tipo de protecção ao contágio.


* Manuel Gomes é jornalista e escritor português londrino.