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Londres e mundo virtual inspiram poesia do brasileiro Silvino Ferreira Jr.

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Teno Silva/Divulgação

Silvino Ferreira



Por Marta Barbosa Stephens

Nascido em Ipirá, pequena cidade no interior da Bahia, e recifense/londrino por adoção, Silvino Ferreira Jr. publica poesia de forma independente desde 1985. Em Londres, cidade que inspirou seu mais recente livro Virtual, ele é também conhecido por ser o rosto e a voz por trás das câmeras do Canal Londres, onde publica há mais de uma década entrevistas com personalidades da comunidade brasileira no Reino Unido. Nesta entrevista, Silvino conta sobre o processo de criação de Virtual, suas inspirações poéticas e os projetos em vídeo que toca durante a pandemia.


Notícias em Português - Como e por quanto tempo foi a produção dos poemas de Virtual?

Silvino Ferreira Jr – É difícil precisar onde Virtual começou. Eu lembro que tive a ideia de escrever uma série de poemas usando a linguagem do meu trabalho como produtor de conteúdo digital e de alguém que passa boa parte do tempo nesse mundo que chamamos de virtual. Queria tirar poesia de palavras que passaram a fazer parte do nosso cotidiano: link, embed, hashtag, timeline etc. Fui colocando ideias no papel aos poucos, muitas vezes um verso apenas. Em março de 2019, eu comecei a escrever com mais disciplina e a dar forma aos primeiros poemas. Primeiro, trabalhando duas horas por dia, mas dois meses depois eu já estava totalmente absorvido pelo livro. No meio do processo, foram surgindo poemas sobre Londres. Em setembro, comecei a trabalhar com a tradutora e esse foi um processo muito produtivo porque eu acabava vendo coisas na versão em português que podiam ser melhoradas. No início de fevereiro desse ano, dei o ok para a impressão e fiz o lançamento no dia 26.

Por que a homenagem a Londres?

Pelo que a cidade significa para mim. Eu vim a Londres pela primeira vez em 1995, por dez dias, e curti muito a cidade. Em 1998, voltei para uma temporada de um ano, com o objetivo de estudar inglês. Foi um dos melhores anos da minha vida. Eu cheguei aqui um tanto quanto deprimido, desanimado com o trabalho, e a cidade levantou a minha autoestima. Foi neste período que conheci a Anne-Marie Glasheen, a tradutora de Virtual, que foi quem me apresentou à Susan, em 2006, quando vim passar uma temporada de dois meses na cidade. A Anne-Marie me levava para recitais de poesia, me apresentou alguns poetas ingleses, indicou os meus poemas para uma revista literária que era publicada em Luxemburgo, se tornou minha grande amiga. Foi aqui também quando fiz a transição do mundo mais analógico para o digital. Digo que antes de Londres e da Susan, que já tinha intimidade com a linguagem digital, o meu laptop era uma máquina de escrever de luxo. Londres se tornou a minha cidade, me sinto em casa aqui.

O que te leva a escrever um poema?

Nunca soube responder essa pergunta com precisão. Acredito que quando comecei a ler poesia, eu ficava encantado com a magia das palavras. Com o som que elas produziam. Eu tinha discos de poesia em casa. Também lembro do encantamento que tomou conta de mim quando o meu pai levou um poeta de cordel à nossa casa. Eu tinha 10 anos e ficava olhando para ele como se estivesse diante de um mágico. Às vezes fico longos períodos sem escrever um poema. Deixo que a necessidade vá se impondo. Gosto quando tenho um tema que eu possa explorar através da linguagem poética e de uma forma que eu reconheça a minha voz. Antes de ser boa ou ruim, o mais importante é que eu reconheça a minha voz no poema. Porque a voz de cada ser humano é única.

Você sempre escreve em português?

É quase sempre em português, porque já me arrisquei a escrever alguns poemas em inglês. Só falta coragem para mostrá-los! Eu adoro quando consigo juntar sonoridades de palavras em português e em inglês. Tem um pouco disso em Virtual. Promover esse encontro.

Quem são suas inspirações poéticas?

Os meus primeiros contatos com a poesia foram através da Bíblia, que o meu pai me obrigou a ler muito cedo, e de alguns poetas batistas. Mais tarde, em Recife, eu descobri João Cabral de Melo Neto, através de um seminarista que estudava no Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, chamado Marco Monteiro. Até hoje, João Cabral é uma referência. Curto muito também alguns poetas norte-americanos como William Carlos Williams, E. E. Cummings, Elisabeth Bishop, o português Fernando Pessoa e vários ingleses: Auden, Simon Armitage, Carol Anne Duff, Charly Cox, que descobri recentemente, entre outros. Embora muita gente o considere mais um contista e ensaísta, eu também curto a poesia do argentino Jorge Luis Borges. Eu sei que gosto muito de um poeta pela quantidade de releituras e quando eles me fazem querer escrever.

Sobre seus muitos projetos paralelos, como nasceu e em que consistiu a série Um dia de cada vez?

A série ‘Um Dia de Cada Vez’ foi uma sugestão de um amigo do Recife, o Alexandre Alencar. Ele trabalha com audiovisual e, com a pandemia, ficou sem poder trabalhar. A ideia dele era a de que a gente produzisse uma série registrando o cotidiano de algumas famílias durante o período de isolamento social. Eu aceitei de imediato porque vi a ideia como uma forma de continuar produzindo durante um período que era impossível sair para filmar. Cada participante, usando o celular, filmava e me enviava o material diariamente. Eu juntava tudo e editava um episódio por dia. Foram 75 vídeos, em 75 dias consecutivos.

Ficou um saldo muito positivo porque a gente tem um registro de um período histórico e único em nossas vidas. Também ficou uma terrível dor nas costas, de tanto tempo sentado para editar tanto vídeo, mas valeu a pena, mesmo assim.

E agora você toca o projeto Lockdown Experience? Do que se trata?

Lockdown Experience é uma sequência de ‘Um Dia de Cada Vez’, porque é também uma maneira de continuar produzindo conteúdo enquanto não podemos retomar as filmagens. Eu gravo as entrevistas via Zoom com pessoas de diferentes países europeus para que cada um compartilhe a experiência vivida em casa durante a pandemia. É mais leve e não tem o compromisso de ser diário.

Qual é hoje a sua relação com o Brasil?

A relação com o Brasil é, fundamentalmente, a minha relação com a minha família e os grandes amigas e amigos que tenho lá. Para mim, eles são o Brasil e é deles que tenho mais saudade. Vou a cada 2 anos, posso pelo menos 3 meses e volto. Não passa pela minha cabeça voltar a morar lá.


COSTURA

(por Silvino Ferreira Jr)

não me engana

esse meu verso

de corte moderno

me sinto velho

sobre o linho

de papel

minha alma

é de alfaiate

uso linha

e agulha

velha máquina

de costura

o que não uso

é fita métrica

na medida

do meu terno


(Extraído do livro Virtual)