- °C
Home

Justificar o injustificável

|

Foto: getsurrey.co.uk

Dominic Cummings




Por João André Costa*


Facto: Dominic Cummings, conselheiro-chefe de Boris Johnson, viajou com a mulher e o filho no fim de março, em pleno confinamento, até Durham, cidade a 400 quilómetros a Norte de Londres, onde vivem os seus pais e irmã.


Facto: Dominic Cummings quebrou as regras de confinamento enquanto toda uma nação se via obrigada a ficar em casa, desse por onde desse, custasse a quem custasse.


Essa era a mensagem do governo: fiquem em casa, protejam o serviço nacional de saúde e salvem vidas. O slogan, simples e de rápida apreensão, deixa ainda hoje famílias separadas. O slogan, directo, levou a que milhares de pessoas morressem sós nos hospitais sem a possibilidade de se despedirem dos seus familiares, familiares esses tantas vezes impedidos de tomar parte nos funerais.


Fruto das directivas do governo, centenas de milhares de pacientes estão impossibilitados de aceder a tratamentos em hospitais, resultado do medo instilado por quem desenhou a estratégia de confinamento, Dominic Cummings incluído. Fruto das ordens do Governo, milhões de trabalhadores vêem-se neste momento em situação de pré-desemprego, com o futuro e o futuro das suas famílias em cheque.


As regras governamentais, no entanto, não se aplicam a Dominic Cummings. De acordo com o mesmo, a viagem de 400 quilómetros foi o meio encontrado para deixar o filho doente ao cuidado da família. O mesmo, no entanto, poderia dizer cada um de nós se nos encontrássemos em situação igual.


De caminho, e depois da chegada à propriedade dos pais, tanto Dominic Cummings como a sua mulher contraíram sintomas em tudo semelhantes ao novo coronavírus, assim colocando em risco tanto os seus pais, como a irmã e as duas sobrinhas. Diz Dominic Cummings não ter tido outra opção senão viajar horas sem fim por não ter mais ninguém em Londres com quem deixar o filho doente.


Que Dominic Cummings quebrou as regras de confinamento, é para todos óbvio. Tendo quebrado as regras de confinamento, a sua demissão seria o mínimo esperado, seguida da respectiva multa aplicável nestas ocasiões.


Daqui em diante, sempre que as autoridades interpelem quem esteja a fugir ao confinamento, a resposta estará na ponta da língua e será em tudo semelhante à justificação de Cummings: “Dadas as circunstâncias, senhor polícia, eu só fiz o que achava certo.”


Infelizmente, este não é o caso. Desde logo, começando pelas declarações de domingo do primeiro-ministro Boris Johnson a defender as acções “legais e responsáveis” de Dominic Cummings e a acabar na conferência de impressa do próprio Cummings, no dia seguinte, a justificar o injustificável diante de uma nação incrédula.


Cummings não pediu desculpa, Cummings não se arrepende das acções tomadas e Cummings não pediu a demissão. Ao invés, uma conferência de imprensa foi o meio encontrado para deitar ainda mais achas a uma fogueira por demais viva. Tanto Cummings como Johnson souberam desta viagem, a qual só é agora de conhecimento público por pressão dos média.


Um país, dois sistemas. Enquanto milhões assistem impotentes ao fim das suas vidas, uma minoria privilegiada e altiva continua a exercer o seu poder de modo incólume. As consequências? Daqui em diante, sempre que as autoridades interpelem quem esteja a fugir ao confinamento, a resposta estará na ponta da língua e será em tudo semelhante à justificação de Cummings: “Dadas as circunstâncias, senhor polícia, eu só fiz o que achava certo.”


As consequências? Na impossibilidade da implementação de confinamento a nível nacional, uma segunda vaga do novo coronavírus será não só inevitável como catastrófica, comprometendo centenas de milhares de vidas e o futuro de toda uma região. A imunidade de grupo? Está a um passo de distância.


* João André Costa é professor e tem o blog Dar aulas em Inglaterra, onde vive há 11 anos.