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Crônica: Vida delivery

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Foto: Priscilla Du Preez/Unsplash

Priscilla du preez HrRkKs4hB38 unsplash




Por Gabriel Colombo*


Eu estou relendo e decorando toda a coleção de livros da Virginia Woolf aqui em casa.


Oras, por esta época estamos todos concentrados nas coisas que sempre basicamente  tivemos: abrigo, família, água, ar e, extraordinariamente, comida delivery. É o fim do mundo? Claro que não. Ainda nos resta originalidade, positividade, amigos e muita gente boa por aí. Dois mil e vinte está sendo o ano em que as pétalas dos buquês caíram ou jogaram feitiço nos nossos pinheiros do natal ano passado, de tão ácido e cruel.


Nossos Oysters ficaram sem uso guardados em nossas carteiras.


Homens fazem guerras e falam de paz e eu querendo, nas relações amigáveis, decifrar qual é a política da anistia para alguém que você gosta, mas segue o privando a conta do Instagram durante a pandemia?


Parece mais uma violação de direitos, mas ninguém consegue encontrar a classificação oficial deste tipo de literatura SPAM, para sabermos bem do que se trata nestes tempos em que estamos por um triz, quando Facebook e mídias virtuais são nossos novos deuses.


As vozes que definem nosso mundo estão caladas e contidas e todos querem se sentir livres, independente dos seus gêneros nascidos e sexualidades desenvolvidas.


À distância, o celular, que bom ainda nos deixa falar de tudo, mas você ficará surpreso o quanto ainda temos para falar, como não partidários que bem somos, quando tudo à normalidade em breve voltar.


Eu gostaria de ser estúpido e dizer que pode ser a consequência de uma praga por fake astrólogos místicos e zombeteiros da China, pois sinto que existe um grupo de pessoas que aprecia a si mesmo e não a todos nós. Suspeito que os primeiros ministros podem estar sujeitos a indispensabilidade. Uma condição também comum em emissoras como a BBC.


E eu já estou me preparando para esperar conversas de mais de três mil caracteres entre eu, eles e você. Estamos provando o íntimo do distúrbio e da privação. Certamente teremos muito a contar, e assim faremos, subtraindo o que de muito mesmo triste foi. Ou seria melhor relatar tudo?


No meio disso ainda há gente nascendo, garotas menstruando, meninos virando homens e gente se curando. Nem tudo está perdido. E eu deposito muita fé na minha paixão pelo mundo que cada personalidade carrega. Meu novo tipo favorito de boaster é a pessoa que acha que pode ter coronavírus há algumas semanas na verdade, e não foi diagnosticada. E diz ¨não percebi por que sou muito ocupada¨.


Como nos moveremos e nos comportaremos dentro da nova ordem é mais relevante. Mais e mais pessoas, como nós, dizendo não às antigas prisões de pensamento binário. Já é um dos mantras para botarmos em prática hoje vislumbrando o futuro. Assim como um muito obrigado a dor, obrigado silêncio, obrigado afastamento, obrigado resiliência.


Alguma chance de compartilhar isso? Boa ideia. E, com muito pensamento pra lá de positivo para frequentarmos de volta, no mínimo, a Pizza Express ou o pub mais próximo na hora do almoço e happy hour. Imagine que acontecimento brilhante será.


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* Gabriel Colombo é jornalista, duplo-cidadão italiano/brasileiro e reside em Londres há 13 anos. gabriel@gabrielcolombo.co.uk