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Tempo de olhar para o tempo

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Foto de Roger Alarcón

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Imagem da Picadily Circus no dia 24 de março de 2020: vazio causado por uma pandemia

Por Manuel Gomes*


Vamos recuar apenas algumas semanas atrás. Não muitas. Menos de um mês se estivermos a olhar para Londres.


O que vemos?


Pessoas a correr para apanhar um autocarro que hoje viaja vazio. Ou quase. Gente que tenta passar na frente de toda a gente nas estações de metro e gente que corre para atravessar a rua mesmo que o semáforo esteja vermelho.


Gente incapaz de fazer todos os telefonemas que a agenda pede ou escrever e enviar todos os emails que a pressão de trabalho exige. Que corre para a escola para estudar, levar ou buscar os filhos. Que corre para casa, para o supermercado, para o emprego, que corre, corre, corre e corre até para dormir ou comer quando não come no posto de trabalho.


Gente que corre pelo salário, por um emprego melhor mesmo que tenha um bom emprego. Que corre pelo lugar de chefia, pelo negócio concorrente, gente que corre só para ter que voltar a correr. Gente que dorme a correr e que que vai ao ginásio ou ao parque para continuar a correr.


Seja qual for a razão, o acto de correr, com a cabeça, com as pernas ou braços acabou por contagiar toda a nossa filosofia de vida e mesmo em férias ou fim-de-semana, a corrida continua.


E agora corrida?


Bem, agora estamos impedidos de correr excepto se for com as pernas nas ruas e nos parques. Nem mesmo o desporto consegue correr e esse hábito entranhado em cada ser humano tornou-se uma carência.


Famílias acabam por se conhecer de uma forma como nunca lhes tinha acontecido. Colegas de trabalho da linha da frente esquecem quezílias e diferenças e até mesmo as diferentes classes sociais percebem agora que afinal, nesta circunstância, todos somos iguais.


Os vizinhos unem-se e até aqueles que antes não se conheciam, correm agora para janelas e varandas para um até já, um beijo, uma canção ou um aplauso comum.


As igrejas esvaziam-se, os escritórios silenciam-se e as lojas comerciais baixam os taipais.


De repente, todas as pessoas percebem aquilo que só os velhos sabiam. Vive-se mais e melhor quando se corre apenas pelo prazer de correr e não pela obrigação do vício de correr.


Todos foram obrigados a saber que podem estar juntos e ser uma enorme equipa dentro da solidão. Aprendemos essa grande lição de que é possível viver sem ser a correr.


Hoje, devagar, esperamos que o semáforo fique verde mesmo que não haja trânsito só porque temos tempo.


Afinal o tempo que sempre tivemos e que preferimos ignorar.


Depois de passar esta fase, espero que toda esta gente descanse desta corrida de estar parado a correr pela vida.



* Manuel Gomes é jornalista e escritor português a residir em Londres.