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Um tecto chamado Londres

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Nick Fewings/Unsplash

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Por Manuel Gomes*


Os jornalistas foram considerados pelo governo de Boris Johnson como “key workers” o que dá aos profissionais da comunicação alguma liberdade de movimento. Enquanto jornalista, procuro as fontes de informação e a confirmação das fontes.


Uma das melhores fontes de informação que um jornalista pode ter, é quando confirma in loco a matéria que publica. Quando o jornalista assiste e vê com os seus olhos, ouve com os seus ouvidos, a informação está confirmada.


Tenho privilegiado alguns meios de referência na imprensa internacional e nos meios em que confio seja em Portugal, seja no Reino Unido. Tendencialmente procuro fontes nas “catedrais” de informação de cada país que pesquiso como a TSF em Portugal ou a BBC no Reino Unido entre outros. Depois estabeleço confrontos com outros meios para ter a certeza de que aquilo que vai ser escrito e publicado tem os fundamentos necessários para serem credíveis. A máxima do jornalismo passa sempre por não enganar os leitores.


Nada é tão seguro como ver, ouvir e sentir na primeira pessoa o que se vai escrever e por isso vou para a rua. Procuro estimar a percentagem de pessoas que usam máscara para ver quando vão passar o limite dos 50%. Londres está ainda longe da marca embora se registe um crescimento diário. Também diariamente passo uma ponte para ver a cor do rio. “Hoje está mais limpo…/… hoje está mais castanho.”


Olho para dentro dos autocarros e tento contar o número de passageiros. Faço o mesmo na janela do meu quarto num segundo andar. A minha janela dá para o recreio de uma escola que agora está deserta como se fosse um período de férias ou half-term.


Oiço os silêncios e tento perceber se há mais carros particulares ou identificados com publicidade de empresas. Espreito o display das paragens de autocarro para medir as demoras dos próximos autocarros. Entro nas estações de metrô e comparo dias de semana ou fim-de-semana. Tento apalpar o pulso da capital britânica na forma empírica de o fazer e depois procuro nas fontes a ciência.


Hoje decidi andar por cerca de uma hora, meia hora para cada lado e fiz o percurso Vauxhall para Vitoria e regresso. O autocarro com mais passageiros tinha cinco pessoas mais o motorista. Alguns deles absolutamente vazios. Era meio dia de 23 de março. Passei pelas estações de metrô, combóio e autocarro de Vauxhall e registei o seu aspecto desolador.


Em Vitoria parei nos semáforos mesmo que estivesse verde para passageiros. Olhei para os lados e contei uma senhora com máscara à minha esquerda e um homem sem máscara à minha direita. Nenhum deles olhou para mim. Duas semanas antes eu teria cerca de uma centena de pessoas à minha volta atropelando a oportunidade de ser o primeiro a atravessar a rua. Quando o semáforo ficou vermelho, olhei para o trânsito que não havia e atravessei calmamente. Estava decidido a ir espreitar para a estação internacional de Vitoria. Creio ter visto mais funcionários que passageiros e não vi uma única mala de viagem. Lembrei-me das vezes que desesperei para encontrar alguém conhecido que tinha viajado para Londres tal a confusão de gente dividida entre partidas e chegadas.


Pelo caminho, fui vendo os restaurantes fechados. Pubs, clínicas, ginásios; tudo fechado.


Fui olhado para as pessoas que se cruzavam comigo na rua. Uma senhora loira sorriu para mim e encostou a mão no peito como um cumprimento. Como um olá. Algumas pessoas correndo pelos passeios para exercitar o corpo, quem sabe o pensamento. Eu segui jornalista a registar o que via para ter a certeza de que o que iria escrever a seguir seria a verdade do que via, ouvia e sentia.


Bastaram duzentos metros de distância e um jovem anormalmente alto veio ter comigo. Pediu-me uma moeda. A cinco metros de distância, debaixo do túnel do combóio, outro homem tocava um tambor. Os artistas de rua não precisam de permissão para continuar. Principalmente os que têm fome.


Atravessei a ponte de Vauxhall e olhei o rio. Hoje mais sujo que ontem mas também com menos água. As barragens podem estar fechadas: “Penso eu”.


Do outro lado da ponte, haveria de ter outras surpresas. Na ausência da massa humana habitual, pequenas colónias com dezenas de pessoas aparecem nas esquinas. “O que se passa ali para haver tanta gente concentrada?” – Pergunto para mim com a curiosidade de saber que razão junta tantas pessoas quando é recomendado que não haja contactos.


Atravesso a rua e decido confirmar com os meus olhos, os mesmos olhos que agora escrevem. Que comunidades são estas que se reúnem nas esquinas dos passeios como quem molha os pés na água da praia?


Vão conversando como se o Covid-19 fosse coisa de outro continente, de outro mundo. Parece gente que quer arriscar mas não. Isso seria impossível.


Espalhados pelos passeios, sacos-cama, cobertores, troleys, sacos plásticos, mochilas e um cheiro pestilento com sabor a falta de banho. Na ausência da massa humana que os absorve, que os esconde dos nossos olhos, que os mistura e os faz parecer poucos ou quase nenhuns, na falta dessa gente toda que agora está em casa, os sem-abrigo ficam também eles em casa e mostram-se numa quantidade que antes era difícil imaginar.


Condenados à prisão domiciliária, unem-se num sem nada para perder e tudo o que vier é bónus.


Fui e voltei e vi na sua linguagem corporal e na forma como socializavam uma inexplicável ausência de medo. Uma traquina revolta por se sentirem esquecidos como colmeia de contágio. O sol estava brilhante e toda a Vauxhall Bridge Road estava deserta desse corredor de vento. A primavera chegou e a luz do dia dura um pouco mais. Todos estão em casa e os sem-abrigo também.


Nunca pensei que em vinte minutos de estrada fossem em tão grande número. Quando saímos à rua, eles tornam-se menos mas afinal…



* Manuel Gomes é jornalista e escritor português a viver em Londres.