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ARTIGO - 2020: O ano que não existiu

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17 print coluna12 03 2020 NP  FernandoReboucas



Por Fernando Rebouças*


Na edição impressa do jornal Notícias em Português publicada em Londres no dia 12 de março de 2020, tive a felicidade de publicar em nossa coluna mensal um artigo de minha autoria cujo título “O Século 20 não acabou” para analisar sobre as posturas políticas, econômicas e sociais do século passado que ainda vigoram no início do atual século 21.


Segundo Sartre, o “homem está condenado a ser livre”, principalmente, por não ser responsável pela sua própria origem e criação e mesmo assim se sente livre com plenos direitos em sua existência.


Na prática, essa liberdade ampliada tem permitido ao ser humano escolher atitudes e decisões positivas ou negativas conforme a sua capacidade de enxergar as conseqüências de seus atos em relação ao passado, ao presente e para o futuro individual e coletivo.


Nos últimos anos, temos assistido aos acelerados processos de atitudes políticas e sociais (e também econômicas) que tentam flexibilizar as leis de defesa do meio ambiente, da saúde humana, dos direitos dos trabalhadores e convencendo todo mundo que a solução para o planeta é o ser humano trabalhar por cinquenta anos e se aposentar depois dos 70 anos para gerar uma concentração de dinheiro nos cofres públicos e previdenciários, sem apontar o dedo para as empresas de médio e grande porte que não pagaram as suas dívidas com a previdência social.


As principais economias do mundo, como a China, permanecem utilizando fontes não renováveis de energia (como o carvão e o petróleo) para manter as suas cadeias de produção e de suprimentos em altíssima velocidade, forçando pessoas a trabalharem mais de 12 horas por dia, poluindo rios e emitindo gases de efeitos estufa na atmosfera como forma de manter um bruto enriquecimento.


Atualmente, percebemos que quando os países e as principais empresas do mundo não respeitam o meio ambiente, não respeitam o direito social e a limitação física e psicológica do trabalhador, todos os sistemas econômicos e sociais ficam vulneráveis às situações de crise financeira gerando intolerância política, conflitos sociais e, o mais preocupante, criando um perigoso cenário para o desequilíbrio ambiental com o surgimento de perigosas doenças epidêmicas.


Como disse Sartre, o homem ainda está condenado e, complementando o filósofo, está condenando os demais a serem livres vivendo sob pressão econômica, política e  social visando somente as contas de governos e de empresas.


Colocaram a humanidade, o meio ambiente e a vida em último lugar nas prioridades de governos e empresas, na previsão de um mercado cada vez mais automatizado no século 21 administrado por inteligências artificiais que dispensariam os seres humanos dos principais postos de trabalhos.


Mas, com o passar do tempo, e não demorou tanto tempo assim, a exploração causada pelo homem sobre o próprio homem e contra a natureza gerou uma acelerada pandemia em todo o mundo sob a égide de uma gripe batizada de “Novo Coronavírus ou Covid-19” que ameaça esvaziar todos os capitais privados e os cofres governamentais acumulados com a força do egoísmo político, da exploração econômica e do desrespeito humano.


A promessa era acumular capital de investimentos para abrir terreno e mercados para a Indústria 4.0, com mais automação, inteligência artificial e exploração espacial, mas esqueceram de cuidar do ser humano, esqueceram de cuidar da natureza, esqueceram de cuidar da vida. E quando isso acontece, logo apareceram as doenças para derrubar o véu da ilusão de uma mercado planejado para poucos.


Sendo assim, o homem corre o risco de continuar condenado a ser livre. Somente livre.


* Fernando Rebouças é desenhista, publicitário e editor. Autor dos quadrinhos do Oi! O Tucano Ecologista (www.oiarte.com) e de Scriptah (www.scriptah.oiarte.com)