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O nosso quadrado

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Lea bohm bt0it9pozXM unsplash


Por Gabriel Colombo*

A certeza é uma: as contas de água, luz e gás irão chegar todo mês. Os aluguéis estão disparados em seus valores. Trabalhamos dobrado para pagar nosso landlord. Será que estamos virando ratinhos dentro de uma ratoeira? Espero que não.

Pagar aluguel caro e não ter money para nos divertirmos deveria estar na última Vogue como uma das coisas que não são cool. Os espaços pequenos, a falta de jardim e cadê o pátio para fazermos o churrasco de domingo? Chegou a hora de nos perguntarmos: - Casa é apenas o lugar onde você cai duro? Onde você mora? Ou onde seu coração habita?

Acredito que no futuro todos seremos nômades. Tudo já cabe dentro de um laptop, tablet ou celular. E as gavetas ficaram perdidas e obsoletas. Os endereços são relativos e nossos zip codes necessários para alguns efeitos burocráticos. Não precisamos renunciar a nosso emprego ou a quem somos. Tudo muito portátil. Número 1:  Pense no que você precisa para viver.

Número 2:  Pense no que é descartável e só lhe faz sofrer, pesa demais e, por questão de desapego, já dá para viver sem. Conclusão que você terá: reduzir um espaço físico aumentará sua liberdade.

Onde é a sua casa?

Aqui?

Acolá?

Será que não daria para ser em qualquer lugar? Quando a insatisfação com este círculo vicioso de somente trabalhar para pagar o teto assombra, o motivo para desapegar já se basta por si. Não há por que criar raízes no que nos aprisiona. O bom são raízes onde nossa vida se desdobra. Eu li que um designer da Ralph Lauren, entediado com a vida de Workaholic na cidade grande, encontrou um lugar onde percebeu o cenário inspirador, conseguiu até rede wi-fi e construiu seu lar. Onde? No meio de duas árvores para chamar de suas.

Perto deste original exemplo de como sair do sufoco, eu te pergunto, leitor: - O que realmente é casa? E eu te respondo... - É um ponto do planeta onde me sinto mais vivo e alimentado. Livre.

Inteiro. Onde eu faço o que quero e meus sentidos se aguçam, sem irrelevantes interferências. É lugar onde metros quadrados, cúbicos, perpendiculares e vizinhos são meus amigos, e nunca me atrapalham. É onde eu me deito. Acordo. E olho pelas janelas da minha alma o mundo bem amplo. Até onde minha vista imaginativa, lá no horizonte, alcança.

Casa não é para prender nem me isolar. É para abastecer meu intelecto e meu corpo físico. Para entrar e sair do mundo, sem contas caras, quando eu precisar ou bem entender. E, por consequência, casa jamais será um conceito obsoleto de um mero/adorável/simples/estúpido espaço delimitado por portas e janelas. Seria muita falta de criatividade.

Pré-fabricada. Onde o Senhor é o vento.

Alugada. E toleraremos o melhor vizinho chamado sol.

Arrendada. Para adicionar um tijolo a cada dia.

Uso fruto. E imaginar plantas que podemos regar.

Comprada ou herdada. Um recanto revestido por raízes de papel de parede decorativa.

No centro de Londres. Em São Paulo, perto do Aeroporto. Ou no sul da Itália.

Num quarto de hotel nos U.S.A.. Numa temporada na Austrália. Numa praia deserta do Caribe ou num resort na Grécia, mesmo fora de temporada. Não importa... Eu saio do banho, eu largo em qualquer lugar a toalha, eu deito molhado e ninguém reclama. Faço marola em meio aos meus lençóis para juntos nos dormirmos debaixo dos cometas. Que delícia amanhecer por ali e ficar o dia inteiro te vendo sorrir para mim. Em um provável reino, numa boa hora, minha estrela da vida inteira. Posso te falar uma coisa? De início eu não quero cozinhar. Percebi que você me deixou mimado. Andei enfadado de pagar tão caro para aquele landlord.

Ele consumiu todo meu salário. Eu quero ser cuidado. Primeiro, você abre o vinho, aquece a banheira e me chama. Nisso só eu e você. Deixe o telefone tocar. Sim, o mundo está lá fora.

Caso daqui um tempo eu me mude para um flat pequeno, do tipo daquelas acomodações para estudante de Gloucester Place W1, a gente compra comida pronta no Tesco ou na Pizza Hut ali perto. A gente faz tudo e ainda dá um passeio. Até será bom a gente ter tempo, no domingo, para eu aprender a soletrar todos dias “eu te amo”. Quando você partir, me mande uma carta bem sincera, dizendo que estás feliz e responsável dentro do teu quadrado. Ou se eu viajar, eu retorno no outro dia.


Todavia estou construindo uma estrada para facilitar nosso livre acesso. Tocarei sua campainha dizendo que eu sou todo seu, a gente vai adquirir mobília e daremos um nome para o gato. Daí eu já posso chamar de lar.


* Gabriel Colombo é jornalista, brasileiro do Rio Grande do Sul, e vive em Londres. gabriel@gabrielcolombo.co.uk