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Poeta londrina do Alentejo

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Por Marta Stephens


Quinta-feira de

half term no Southbank Centre e Sandra Guerreiro, ela própria de férias da escola secundária onde é professora, fala de poesia. Nascida em Luxemburgo, criada no Alentejo e londrina por opção desde 2012, Sandra acaba de lançar em Londres “Onde o Lugar – The Where Place” (Editora Glaciar). O livro de poesia tem edição bilingue com tradução para o inglês feita pela poeta britânica Anna Reckin.


Sandra Guerreiro tem poesia publicada em dezenas de revistas em Portugal, nos EUA e Brasil. Tem também poesia em diversas antologias, como as colectâneas Ornato em Cadeia (2017, Nu Limbo Edições, Brasil) e a Antologia de Poesia Iberoamerciana Actual (2018, ExLibric, Málaga, Espanha).


A seguir, ela conta à reportagem de Notícias em Português sobre a vida de poeta londrina do Alentejo, e de como seu trabalho com crianças autistas influencia sua produção artística.


Notícias em Português – Quando começou a escrever poesia?


Sandra Guerreiro – Comecei nos anos 1990, quando estudava língua e literatura moderna na Universidade de Coimbra. Ali aconteceram os Encontros Internacionais de Poetas. Aroldo Campos participou de um deles. Antes disso, eu nunca tinha conhecido um poeta vivo, uma pessoa como eu e você. Eu tinha 22 anos quando li pela primeira vez em público uma poesia minha, no terceiro encontro de Coimbra, em 1998. Naqueles encontros, alunos e poetas consagrados sentavam-se à mesma mesa e liam seus versos lado a lado, em uma época quando ainda não havia essa cultura da leitura do poema em público. Foi ali que me tornei uma poeta. E foi quando conheci a obra de Herberto Helder. Acabei a licenciatura e fui para um programa de doutoramento em Buffalo, no estado de Nova York. Foi nos Estados Unidos que conheci Anna Reckin, poeta britânica que fez a edição final da versão em inglês dos meus poemas. Os poemas foram originalmente escritos em português, eu mesma fiz a primeira tradução para o inglês e a Anna Reckin fez a revisão e edição final.


Em que idioma escreve?


Escrevo nas duas línguas. Também posso misturar português e inglês no mesmo verso. Acho que isso acontece a todos que têm essa característica biográfica de navegar em várias línguas. Quando eu escrevo memórias da infância, por exemplo, só sai em português. Quando escrevo sobre meu pai, que morreu em acidente de trabalho quando eu tinha nove anos, também é sempre em português. Mas já me vi no Alentejo escrevendo em inglês. A temática do poema é que me permite saber que idioma funcionará melhor.


Desde quando vive em Londres?


Desde 2012. Depois de um mestrado nos Estados Unidos, uma segunda licenciatura em Portugal (em comunicação institucional, RP e marketing), vim à procura de um emprego institucional. Em Portugal, eu trabalhava com tradução e professora de inglês.


Mas acabou por voltar para a sala de aula.


Há cinco anos, sou professora do ensino secundário no sul de Londres, responsável pelo apoio a estudantes com autismo. Para além disso também sou responsável pela coordenação das actividades extracurriculares e apoia estudantes cuja primeira língua não é o inglês, quer com aulas extra de língua inglesa quer na tradução para inglês quando é necessária a presença dos pais na escola para reuniões.


Como a convivência com crianças autistas influencia a sua produção?


Trago a experiência do autismo para a poesia, em versos que dão trabalho ao leitor. O que percebo com a convivência com essas crianças é que elas são mais diretas e sinceras. Têm uma maneira de encarar o mundo diferente, uma visão mais refrescante.


Onde é mais fácil ser poeta: Portugal ou Londres?


Portugal é muito conservador. Em Londres ocorrem muitos eventos de poesia todos os dias. Eu gosto de participar de leituras públicas. Mas eu nunca ouvi falar de um grupo de poetas portugueses em Londres. Com certeza haverá poetas no norte da Inglaterra dos quais nunca chegaremos a saber. Mas isso não desanima. Acho que um poeta que acorda e pensa “hoje vou escrever para o meu público” já começa errado. No processo de edição, aí sim, eu penso em formas de publicação. Mas eu não posso fazer isso durante o processo criativo. Eu escrevo para perceber o mundo, para perceber as pessoas e desconstruir memórias. Há textos que são desabafos, há os que são poemas. O que não me parece bom, eu não público. Também conto com a opinião de amigos, também poetas, a quem envio meus textos e cujas opiniões respeito muito.


Londres é uma inspiração?


Claro que a minha poesia é influenciada por Londres. Vivo em uma cidade onde basta sair de casa para encontrar a diversidade de cultura. Que me possibilita escrever um poema em um lugar como o Southbank Center. Eu uso muitas palavras e sons que noto ao meu redor.


O que diria a um jovem poeta português recém chegado a Londres?


Viver da escrita é difícil, mas não deixe de escrever, mesmo que não tenha muitos leitores. Veja o que Londres tem a oferecer. Há muitos eventos gratuitos, visite os websites das pequenas editoras. Se a poesia é importante para a sua vida, você não pode parar de escrever.


Qual sua rotina de escrita?


Posso passar cinco meses sem escrever e depois passo semanas escrevendo todos os dias.


Pensa em voltar a viver em Portugal?


Vou para Portugal três vezes ao ano, mas não penso em voltar. Sou uma portuguesa londrina.


Acredita que sua poesia tem um tema central?


Escrevo muito sobre a violência. Principalmente a violência da palavra na era das redes sociais, quando há mais possibilidades de conexão, mas não há solidariedade. Estamos conectados, mas não estamos ligados entre si. Precisamos acabar com esse modo de pensar de que arte é para certo tipo de pessoa, com mais sensibilidade. Essa visão foi criada para manter a elite.



Para comprar “Onde o Lugar – The Where Place”, procure a editora ou entre em contato com a autora pelo e-mail sandramguerreiro@gmail.com.





nunca soube a verdadeira medida das coisas


sei que régua e esquadro


e esquadra e quadrilha soam a sangue


e o tamanho do sangue, esse sigo-o


há muito que alinho as gotas


as lâminas


o raio que a poça desenha


há muito também que sabemos o tempo que leva


a limpeza do sangue seco


na pele


no pano


no rosto


no dano


Por Sandra Guerreiro