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Depois do Brexit mais nada

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Por Manuel Gomes*


Foram três anos de incertezas e até algumas angústias e foram já muitos os europeus que decidiram sair definitivamente do Reino Unido. Para já, assistimos a um roteiro em que cidadãos e empresas desconhecem ainda como assumir decisões para o futuro a curto prazo.


No imediato, desconhecem-se as regras que serão implementadas nos aeroportos para a entrada de cidadãos residentes ou não, ou a entrada de mercadorias nos espaços alfandegários. Aconteceu o Brexit para libertar um universo de incógnitas a que Bruxelas ou Downing Street não sabem responder.


Após o referendo, foram milhares as pessoas que recorreram financeiramente ao almejado documento que permitia a permanência no território britânico para que depois esse documento fosse invalidado para dar lugar a um novo processo simplificado e gratuito. As garantias que este novo processo sejam fiáveis e permanentes são porém absolutamente nulas.


Entende-se a necessidade de o governo de S. Majestade mapear a população e controlar a origem e permanência dos residentes oriundos de um painel absolutamente internacional. Já não se entende muito bem que essa legalização não seja objecto de um documento físico que permita ao cidadão justificar a sua permanência, seja para as autoridades, bancos ou meros contratos de arrendamento entre outros.


Embora se espere que a informação esteja registada no digital do passaporte, assiste-se que a actividade comercial e financeira não está equipada para a leitura da informação pelo que se esperam novas informações e alternativas a serem apresentadas ou novos problemas. Se o Governo pode possuir esse equipamento, o mesmo não podemos dizer das empresas que pretendam contratar um trabalhador que, perante esta ausência, fica impedida de contratar ou não o trabalhador até deter a informação da sua legalidade. Até hoje, nenhuma empresa sabe como obter essa informação e é crível que a Administração Central não tenha ainda uma solução.


Se alguns ingleses entendem que o Brexit é uma solução, vão agora perceber que a solução arrastou muitos problemas de difícil solução.


A partir de julho de 2021, quem não tiver a sua documentação regularizada, europeu ou não, corre o risco de deportação mas, em todo o caso, não existem garantias de que o tão desejado documento de permanência não seja eliminado a exemplo do que aconteceu com o complexo e muito caro documento inicial que foi criado após o referendo.


Para já, fica a certeza de não haver certezas e a convicção das incertezas num clima político em que aparentemente será Londres - que curiosamente votou pela permanência – a sofrer os resultados de forma mais intensa.


A juventude britânica assiste incrédula à sua incapacidade de alterar o resultado político enquanto a Administração Britânica insiste em pensar que pode escolher apenas os melhores e o que mais convém. A União Europeia atenta ao populismo da Administração Britânica, prefere o recato dos corredores enquanto urde a resposta que se adivinha esmagadora de 27 nações contra uma que ainda sonha com o império que foi outrora, mas que deixou de ser.


Os argumentos da Commonwealth, os acordos com a China ou a perseguição dos EUA mostram-se insuficientes para o atalho das empresas que não desistem de olhar para o mercado da União Europeia na soleira da porta e, por isso, com custos mais reduzidos.


Depois do Brexit? A ver vamos, como diz o cego.


* Manuel Gomes é jornalista e escritor português a residir em Londres.