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Racismo que deveria envergonhar a todos

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Ilustracao Vanessa Costa



Por Cristina Cabral*


Vivemos numa era polémica, em que a humanidade respira cada vez mais a brisa tóxica da chamada “white supremacy” (supremacia branca), e suas ideologias extremistas. Quando pensava que a situação na Inglaterra estava uma catástrofe, devido à insegurança causada pelo Brexit, nunca pude imaginar de que no meio de tantas imperfeições, este país ainda é perfeito comparado com o trágico racismo institucional e violência vivida pelos afro descendentes residentes em Portugal.


Em terras lusas deveria se ouvir a melodia do poema “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, mas pelas visões macabras transmitidas pelas redes sociais e televisão nacional é evidente que “mudam-se os tempos e continuam as atrocidades”.


O ano 2020 começou da pior maneira possível para a comunidade africana, começando pelo jovem Giovani de 21 anos cobardemente assasinado por um grupo de quinze portugueses. Justamente dias depois da sua final despedida, nos deparamos com outro abominável episódio, o caso Claudia Simões.


A história de uma mãe de origem angolana, que ao apanhar o autocarro 163 da Vimeca não poderia imaginar que estava a viajar em destino ao inferno. Tudo começou porque a sua filha Victoria, de oito anos, esqueceu-se do passe em casa. O motorista não só insulta a senhora de nomes como macaca e preta, como resolve chamar a polícia que, em vez de usar a autoridade para zelar pela paz, atira Claudia no chão, e usa a força excessiva tratando-lhe de forma desumana, sem que esta apresentasse qualquer resistência ou perigo para a sociedade. O traumatizante episódio foi filmado e torna-se viral, revelando imagens perturbadoras de covardia e abuso de autoridade de um polícia que não só tem a coragem de espancar uma mulher desarmada, mas também pela falta de humanidade em torturá-la em frente à sua filha de oito anos.


O grande filósofo Emanuel Kant argumentava que: ”Um negro era estúpido, um animal”. Esta mensagem filosófica não foge à legislação portuguesa e ao famoso artigo 250 do código penal, em que indica que, aos olhos da lei, negro é sempre suspeito: “Os órgãos de polícia criminal podem proceder à identificação de qualquer pessoa encontrada em lugar público (...) sempre que sobre ela recaiam fundadas suspeitas da prática de crimes, da pendência de processo de extradição ou de expulsão, de que tenha penetrado ou permaneça irregularmente no território nacional (...)”


Perante esta lei, a Claudia é considerada a arguida independente da situação, pois a sua cor da pele já prova a sua culpa. Portugal atrasou no tempo e ainda não superou a arrogância do tempo dos descobrimentos, continua a defender a ‘Drapetomania’, um conceito criado durante a escravatura, em que a sua definição significava: um escravo que pensasse que poderia fugir de seu dono, e viver livre ou deixar de ser torturado, era considerado um doente mental. Esta definição não foge à indignação da sociedade portuguesa quando nós negros decidimos lutar pela igualdade. A sociedade portuguesa reage de forma defensiva considerando-nos ingratos e rejeita friamente a ideia de alimentarem o racismo.


No meu ver, a escravatura terminou em teoria, mas as suas práticas e o controlo psicológico da impossibilidade de dar a atribuir a mesma liberdade de expressão a um negro continua visível em todas instituições.


A mídia portuguesa, que assim como a polícia deveria de ser imparcial, também faz justica por conta própria, violando sem remoros o código deontológico do jornalista. A TVI24, por exemplo, alimenta o ódio descaradamente no programa Você na TV, onde recebe frequentemente a advogada Suzana Garcia, uma senhora que expressa suas opiniões racistas em plena televisão nacional com seguintes ofensas: “Esta gentalha”. “Estes pretos.” “Estes porcos.” Além de muitas outras acusações difamatórias que violam de forma chocante as éticas da mídia, em todas as secções do código deontológico incluindo a seção 9: na qual, por lei, "o jornalista deve rejeitar o tratamento discriminatório das pessoas em função da ascendência, cor, etnia, língua, território de origem, religião..."


Seguidamente temos também o Correio da Manhã, que aproveita o incentivo extremista  da TVI criando notícias que defendem sempre o lado do opressor e veste o negro sempre a capa de mau da fita, enquanto os policiais são os super-heróis que apenas estão a cumprir o seu dever. Quanto mais negros torturam e matam, mais valorizados são aos olhos da nação portuguesa. Para além da violação da ética jornalística, e de criação de notícias sem factos apurados, e testemunhas credíveis ainda incentivam comentários de extrema direita divulgados publicamente nas suas redes sociais. Uma verdadeira propaganda nazi, em que racistas camuflados se sentem livres de aplaudir o racismo.


O povo africano quebrou o silêncio e soltou-se das correntes mentais do opressor. Pela primeira vez na história do colonialismo, jovens afrodescendentes protestam pelos seus direitos, recusando-se a oferecer racismo e violência como o único destino para as futuras gerações.


* Cristina Cabral é jornalista e realizadora, mestre em diversidade e comunicação social. Ela é cabo-verdiana a viver em Londres. Vanessa Costa é ilustradora cabo-verdiana que também vive em Londres.