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Emoção barata

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Por Gabriel Colombo*

- Qual a melhor fofoca que você já ouviu? Todos já ouviram que Mick Jagger se travestia de mulher nos anos 1960. E que Marianne Faitfull, irresistivelmente à noite, exercia o efeito borboleta. Você já deve ter tido amigos ou conhecidos parecidos. Perguntem detalhes a eles. Duvido que contem sobre si mesmos.

Na minha realidade, sei de um conhecido amigo que exclama: “Este sou eu”, no clímax de quando faz amor. Nos meus anos de Universidade de Direito, sabíamos que a nossa colega, uma senhora de 52 anos, sempre vestindo vermelho, fazia o curso para ter auto-defesa quando convocada ao Tribunal - em conversa de bar, soubemos que ela assassinou o marido.

A maioria de nós sabe que a fofoca pode ser bem mais do que um hobby e um jeito de superar o embotamento de todos os dias, na hora do café e na pausa para o cigarro. Então, me entristece dizer que eu queria bancar para mim mesmo o cargo de leão fiscalizador da negligência moralista. Porém, gostamos de ouvir as peculiaridades de outrem.

A vida fica um tanto temperada. Podem pensar que falamos besteiras. Que qualquer assunto pode ser uma história. A maioria se perde na minha linha de raciocínio, dando a sugestão para desistirem de ver na TV os documentários sobre as Spice Girls do passado e os do Elton John, por serem repetitivos. E alcoolizados na rua frisando “mind the gap” para acidentais turistas.

Eu soube que fofocaram de mim. E, sim, fofocas chegam até nós: disseram em rede social que sou mais magro e mais alto do que aparento ser por fotografias. Que bom que as minhas agulhadas na acumputura me ajudam e alimentos integrais também. Ah, e muita salada, né? Fofoca é apenas uma ferramenta para distrair as pessoas que nada têm a fazer. É de sentir inveja daqueles poucos de nós que ainda permanecem com corações nobres. Eu juro que acho fofoca cada vez menos divertida e útil.

Dia desses, ouvi sobre alguém com uma estranha tendência sexual e comportamento boderline nas relações pessoais, com grandes erros no seu ambiente de trabalho. O frisson sobre isso perdeu a graça.

Continuei querendo entender o que estava se passando, enquanto todos davam risadas. Ela deve estar com problemas, eu pensei, na vida pessoal e os carrega para o escritório. Comentários maldosos são como manchete - notas de escandalos pessoais aos quais todos estamos sujeitos. Porém, sem muitas explicações – porque fofoca boa tem que ser cruel, e muito menos direito à defesa nem sequer conclusões que estarão na penúltima página.

Como eu e todos nós estamos amadurecendo, estou convencido da minha própria afabilidade. E, ao escutar sobre alguém, considero que todos nós temos altos e baixos, uma pilha de livros para ler, contas a pagar e um chão para limpar. Temos pesadelos e problemas. E, respondendo, que minha melhor dica seja a de beber muita água e aguardarmos quem será nominado ao próximo Oscar para criarmos um bom debate. Eu farei a analogia de que existem grandes e adoráveis pessoas para serem elogiadas não só nas telas. Também existem protagonistas de verdade.

Qualquer um que fofocar com você, fofocará sobre você. Difícil se livrar dessa situação. A primeira coisa a passar pela minha cabeça é: vou espalhar estes baratos tesouros na roda. Afinal, sexta feira merecemos rir. Depois, minha razão passa um filtro que diz "Gabriel: tu não deves". Fruto do meu subconsciente enviando mensagem para me alertar que temos muitos outros campos da vida  a pensar.

Fofocas devem se resumir a conversas alcoolizadas dentro de um Pub. Eu não quero me sentir poderoso, discursando às 7 da noite depois do primeiro e antes do quarto Pint. Tentarei me controlar para não gerar fofocas e dar panos para mangas, por 50 minutos em um ambiente. – Quem somos nós para julgar? Cada um vive do jeito que pode.

Aí, olhei no relógio e se passaram mais cinco minutos. Me senti chato e pensei - Se não for fofoca sobre sexo que os outros fazem em intervalo do almoço, sobre o que mais que todos falam mesmo?

* Gabriel Colombo é jornalista, residente em Londres. gabriel@gabrielcolombo.co.uk