10 °C
Comportamento

TERMÔMETRO

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Timothy eberly yuiJO6bvHi4 unsplash



Por Gabriel Colombo*


- Está frio ou apenas eu estou sentindo assim? Tenho a impressão de estar recebendo um castigo por eventuais excessos elétricos cometidos por nós, ao longo do verão. Ou, pode ser das massas polares e ventos traidores advindos da Cornuália. Ou seria a opção três: - O clima está em revolução mesmo?


Eu notei que no primeiro dia de outono, assinalado na folha do calendário, sofremos uma queda brusca de temperatura. No mínimo, se foi e não sei para onde, aquele conforto de usar camiseta manga curta.


Fomos subtraídos em 15 graus centígrados em nossos termômetros e, no dia posterior fomos batizados novamente nesta vida : não pela nossa madrinha e, sim, pela forte chuva que fêz questão de nos avisar: é outono.


Se você é um sortudo, daqueles que tem um closet enorme, do tamanho do campo de Wimbledon, não tem problemas. Se você também tem saúde para dar e vender como um produto caro da La Roche Posay, melhor ainda. - A saúde eu tenho e aquele roupeiro, com aquele espaço grande, dos sonhos, ainda não.


Achei que eu estava numa pegadinha- cilada de mau gosto, onde uma câmera oculta colocada no teto do meu flat, filmava o meu desespero em encontrar um agasalho. E a cara de quem está perdido - no caso a minha - relembrando “onde é mesmo que guardo meus casacos de frio”?


Bem, quem assistiu a essa gravação deve ter se divertido, no mínimo, e rido ao perceber o quão exausto fiquei.E nem tudo ainda encontrei entre veludos, lãs e malhas - tudo exposto e loteado.


O verão quando nos deu o seu amor máximo este ano, nos deu a convicção de olharmos para aquela blusa de gola alta e afirmarmos: “eu nunca mais vou precisar dela e nem da prima dela”. Eu posso esquecê-las no fundo do baú. - Até para me manter fiel, estava casado com os meus shorts.


Todos nós estamos economizando água e gastando mais luz. Anoitece cedo. Caso eu ouça tocar “How Soon Is Now?” do The Smiths, às 2 da tarde, eu irei responder em voz alta: - Já é madrugada. Subitamente o dia fica noite. E, na capa da Vogue Itália deste mês, por ironia, está escrito: “Sonhe sua própria realidade”.


A vontade é de dormir debaixo daquele edredon que estava de escanteio e ssumir para todos que meus melhores amigos são os restaurantes que fornecem comida por tele-entrega e que a gente fica tão encolhido a ponto de fantasiar ao ouvir aquela voz ao telefone, pensando em como essa pessoa deve se parecer. Sim, ficamos menos sociáveis, até porque as chances  de sairmos e conhecermos reais pessoas são intimidadoras chamadas “lá fora está 7 graus” de frio.


Chegou a hora de dizer adeus ao seu corpo que irá obliterar por um tempo e você só o verá novamente em primavera de 2020. Espero que exista e haja reparações. Agora sim saberemos o verdadeiro uso dos braços e das pernas, que não seja o de serem exibidos. As mulheres se taparão com meias calças e os homens, com suas mangas longas. Tudo mais coberto, tudo mais escuro e convenhamos que nossos pensamentos ficam mais negros, sóbrios e tristes.


Para isto, já tem remédio. Li hoje que a Universidade de Ciência e Tecnologia da China descobriu que uma dose diária de paracetamol ou ibuprofen - facilmente comprado no Tesco e de qualquer jeito eu não recomendo o uso - reduz os sintomas de depressão.


Conto com o meu termostato interno, mais do que nunca.


Domingo passado fui dar uma caminhada no Regents Park. Aquela coisa... Oxigenei o cérebro, liberei serotonina. Vi pais levando seus filhos para andarem de patinete com a diferença - da última vez para cá, as folhas fizeram a cortesia de servir de tapete verde, vários tons, para pisarmos.


Após o passeio um expresso no Pret-A-Manger que antes de tomar mexi com colherinha, na tentativa de adiantar a vida.


Abri a porta no outro dia e ao pisar na calçada fui abençoado com um banho de chuva. Por enquanto, tudo bem. Até o presente momento está sartisfatório.


* Gabriel Colombo é jornalista, residente em Londres. gabriel@gabrielcolombo.co.uk