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Ora agora viras tu, ora agora viro eu

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Viravira




Por Manuel Gomes


Nunca saberei se esta moda dançada em Portugal foi invenção dos portugueses ou uma exportação britânica tão na moda deste Brexit que mais parece a saga do Harry Potter, com a devida diferença temporal, já que é muito mais demorado produzir um novo filme escrito por J. K. Rowling do que ver a virada do Brexit.


No caso da saga cinematográfica, os espaços de tempo demoram sempre alguns anos até que se assiste ao crescimento dos actores enquanto que, no caso do Brexit, num único dia podemos assistir a várias versões a fazer inveja aos mais criativos escritores de guiões de cinema.


Seria um caso de adopção à série britânica “Yes Minister” não fosse o caso de este Brexit se estar a tornar uma autêntica tragédia para as empresas e mesmo para os milhões de cidadãos residentes no Reino Unido.


De um momento para o outro, assistimos a que quem quer comprar casa adia e quem a quer vender também. O mercado do arrendamento habitacional hesita na assinatura contratual enquanto Boris Johnson aproveita para anunciar a construção de várias cadeias na malha prisional do país a levantar a suspeita sobre as razões pelas quais esta decisão foi comunicada por Downing Street. Para querer construir mais cadeias, é suposto que sejam necessárias pelo que a razão será um aumento de população presidiária. Sem essa razão, para que são necessárias mais cadeias? Quem está Boris Johnson a pensar mandar prender quando a anterior primeira-ministra Theresa May anunciou uma queda na criminalidade juvenil?


Já as empresas, com principal destaque para Londres, estão a viver um período absolutamente inimaginável alguns anos atrás. Os processos de crescimento estão estagnados pela razão de falta de recursos humanos mesmo que tenham disponibilidade financeira e que os bancos se mostrem mais disponíveis para o financiamento com o alargamento das bandas de risco. Nem assim os empresários avançam desmotivados pela incerteza sobre quando e como vai ou não acontecer este Brexit.


O regresso dos emigrantes aos seus países de origem está a ser substituído pela vinda de asiáticos e sul-americanos que para lá das diferenças culturais, acusa também um déficit nas questões de formação. As universidades reforçam o seu esforço para conseguir manter o ritmo de matrículas anteriores enquanto que a população vai assistindo a um esvaziamento das prateleiras dos supermercados e ao aumento de preço dos bens de primeira necessidade.


O colosso militar Reino Unido sente a economia fraquejar enquanto procura soluções para uma das maiores dívidas externas do Mundo. Bruxelas, atenta ao fenómeno e consciente da divisão que graça na população britânica joga nas letras pequenas do Tratado de Lisboa onde nasceu o Artigo 50 agora invocado. Difícil de acreditar é que o Reino Unido tenha assinado este acordo sem ter participado na sua redacção. Pelo caminho, Boris afirma que preferiria morrer a não entregar o Brexit aos britânicos a 31 de outubro, data em que este trabalho é escrito. As eleições estão a caminho e com todas as datas falhadas, ninguém acredita em coisa nenhuma. Na falta de melhor, dançamos ao som da música. Ora agora Brexitas tu, ora agora Brexito eu.