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Escrito nas estrelas

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Astrology 993127 1920



Por Gabriel Colombo*


Minha vida cotidiana é povoada por dois tipos de pessoas: as da categoria que acredita nos astros, cristais, nos signos dos zodíacos e leem o horóscopo diariamente. A outra categoria é a das que acham tudo bobagem e botam o jogo astral Divino por terra.


Se prestarmos atenção, podemos ter um bom retorno de como somos e das qualidades e defeitos que nos definem, pois cada signo tem seus pontos positivos e negativos.


Os mais avançados até fazem Mapa Astral, envolvendo data, dia e horário do seu nascimento.


Para os descrentes da Astrologia posso compreendê-los assim:  - porque Deus joga esbanjando sorriso lilás quando os humanos interagem com os outros humanos, de maneira harmoniosa. Também, porque a vida cotidiana basicamente se reduz nas surpresas diárias que independem da nossa vontade - sejam elas boas ou ruins. Só que, em realidade, só temos nossas contas mensais a serem pagas.


- A culpa seria dos astros?...Bem, minha amiga Lucy lê o horóscopo do Evening Standard todos os dias. E, diz que sempre acertam. O horóscopo, bem como a previsão do tempo existe com uma percentual margem de 50% de acertos e 50% de erros.


Enquanto jantava com essa amiga no Restaurante Gaúcho (cozinha argentina), em Picadilly, ela incrivelmente me contava como ser geminiana é bom, pois na auto- linguagem dela, ela se reconhece como a alegria da festa e, como uma dupla cidadã, no sentido metafórico do humor, ela consegue ser versátil. E, com os taurinos, ela não pode ter relacionamentos amorosos porque surgem conflitos: para ela, que se acha muito entendida, diz que os taurinos só pensam em dinheiro, enquanto que, para ela, mais vale um passeio de carro pela estrada, sentindo o ventinho no rosto, sempre com vontade de ser uma turista.


Soltei os talheres; a picanha estava muito boa e eu, muito irritado. Falei: - Mas os taurinos são  workaholics e podem virar psicopatas se não forem bem alimentados, além de serem egoístas. Mas quando bem dosados são pessoas bem focadas. Geminianos para ela também não são a sua cara-metade E, olhando para o meu anel, prata de cor âmbar, elogiou e disse me admirar por ser muito sincero.


Sim, disse: sou muito claro, sincero, objetivo e atento aos detalhes, porém amo os meus modismos, minha obsessão e meu respeito ao tédio, sabendo que Deus está no controle cada vez que a vida se divide entre dois gritos - o de nascer e o de morrer.


Por que procuramos tanto autoconhecimento sozinhos, sendo que a jornada astral não depende só de nós? Eu declino a ouvir noções óbvias e literais sobre nós; pré escritos ou ditados pela minha amiga Lucy. É difícil lidar com incompatibilidades ou dificuldades, eu sei.


O restaurante é um dos melhores. Ela olhou nos meus olhos quando fui pagar a salgada conta e revirei os olhos, ela exclamou: é o efeito Urano e o retorno do Saturno.


Já na rua, ela disse gostar muito de mim mesmo, porque mesmo duvidando das cartas, eu sou espiritualizado. Sim, (bem) organizado dentro da minha bagunça, limpo e responsável.


Verdade seja dita: eu sou um homem real: prefiro entender o mundo pela leve dor que me levará ao ideal do auto aprendizado. Por saber que, para esta vida, em certas situações, não existe terapia. Por eu ter deixado escorregar ao chão dois pratos de porcelana a mim apresentados dentro da Harrods, enquanto tentava escolher o ideal. Por ser facilmente atraído por mulheres poderosas. Pelos meus acessos de risos. Pela minha privacidade; buscas, e meu auto passe que confere minha verdade.


Por saber também dizer não a quem é muito alto ou muito raso. Mas, igualmente, no meio termo, eu não existo. Meu senso crítico e minha auto delação. Ah, quantos defeitos! Ultra high virginiano eu.



* Gabriel Colombo é jornalista, residente em Londres. gabriel@gabrielcolombo.co.uk