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Cinema

ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD

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Por Gabiel Colombo*


Quando a arte imita a vida realizamos nossa catarse. Transbordamos ao ver que ainda estamos numa selva e vivos. Ou melhor, numa Hollywood dos tempos antigos. E bem sabemos: toda festa de bebidas alcoólicas termina em uma briga.


O último filme de Tarantino se passa em Los Angeles, na década de 1960, e segue a vida do astro de Hollywood Rick Dalton (Leonardo Di Caprio) e seu dublê Cliff Booth (Brad Pitt), enquanto eles tentam permanecer relevantes em um período de grande transição. Brad Pitt é dublê e leva tudo que é tombo, soco e bala. Leo vive da aparência. Um tem a força. O outro tem a fama.


- Quantas vezes fomos talentosos e trabalhadores e os outros levaram os louros da graça em cima de nós? Eis a pergunta.


Los Angeles é aquela coisa que sabemos: cheia de mexicanos e artistas. Uns lutando por um minuto de trabalho. Outros, lutando por uma carreira que os levará ao Oscar bem dourado.


Estive no cinema de Baker Street, numa sessão das 4.20h lotada? Sold out. No filme teve romance, choro, frustração e, claro, aquele toque sarcástico: os carros da época, figurinos e letreiros de néon, as garotas hippies descalças e irritadas; os cigarros, o ácido e os letreiros brilhantes do cinema.


Por sensações na tela fui levado de Londres para Los Angeles, onde havia até Roman Polanski e Sharon Tate. Então, eu pensei: que bela peça de arte, melhor que um monte de enciclopédias para dar explicações sobre cada um de nós. Lutando, sendo fortes. Caindo. Levantando.


Bancando o forte. Caindo da cama. Até chorando após se arrepender do disparo de um gatilho. Verdade: estamos cercados por gente de todos os tipos: coelhinhas da Playboy que vivem em mansões, gerentes que bebem uísque, artistas que jogam com as cores, bancários que determinam como nosso mês será, playboys que aceleram as garotas no carro. Gente que vai e vem.


- Moderno é ser eterno? Bastardos Inglórios foi fantástico - assisti com meu pai, que ama filmes de guerra. E ainda nos lembramos das boas sacadas, das ferventes ironias e de quando a vida se fez luta.


Nas telas e na realidade. Aqui devo dizer que este novo filme preserva as figuras e acessórios da cultura poética com uma pontualidade quase religiosa. As tendas e os outdoors, arquitetura, roupas, carro e, claro, uma trilha sonora incrível.


Assim, assistindo ali, todos os atores em papéis grandes e pequenos, trazem seus jogos para o filme. Noventa minutos às vezes duram uma eternidade numa sala de projeção, eu sei, já assisti cada tragédia. E não mudaria um quadro. Diverti-me bebendo uma Coca-cola com gelo, num agradável domingo.


Tarantino ri de muitas coisas em seus filmes, mas quem sorri somos nós: ao vermos um Brad Pitt perfeito após um casamento com e uma separação de Angelina Jolie, tirando sarro da cara de todos, num estado zen. E Leo Di Caprio totalmente humano, flácido, decadente.


O diretor Quentin Tarantino deu seu próprio salto em gêneros de filmes tão diversos quanto Pulp Fiction, os dois volumes de Kill Bill.


Mas, nem por um minuto, ele finge seu amor por Hollywood do final dos anos 1960. Ou seria apenas isso? Uma declaração de amor ao cinema?


Pensei em Oito e Meio de Fellini. Fiquei tão fascinado que quase fui atropelado ao atravessar a Montagu Street, voltando para casa, de tão entretido que estava. A gente nunca sobreviverá sem um pingo de loucura, como cantou o cantor inglês na música Crazy.


Tanto uso das estradas serpenteadas de Hollywood quanto Pulp Fiction fez de seus cruzamentos na cidade, pontuação de nós mesmos que, pelas luzes e momentos de escuridão, apontam onde fomos, com quem cruzamos e onde nos perdemos.


Não é à toa que tudo acaba em carnificina, facada, fogo, polícia e uma aparente paz. Ops...Contei o final. Sorry.


E ainda ouso reafirmar que a arte interpreta a vida. E como sangra ainda.



* Gabriel Colombo é jornalista, residente em Londres. gabriel@gabrielcolombo.co.uk