23 °C
Perfil

O sorriso da esperança

|

Acervo Pessoal

A5e2cfaa 8acf 4041 aa65 e18eb8ccc822


“Aqui não falta comida a mim ou aos meus filhos, mas eu nunca consigo esquecer que famílias estão famintas em Moçambique”, diz a mãe de seis


484edac4 9d7e 4c07 a2a2 1338970572cf

Namatamba Beira, Moçambique, abril de 2019: crianças brincam com bola improvisada


Por Marta Stephens

Emigrar não significa esquecer as raízes. Maria Luisa Tembe Moreno Oprea, de 47 anos, é um bom exemplo disso. Nascida em Maputo, ela deixou Moçambique e mudou-se para o Algarve, Portugal, nos anos 1990, com todos os motivos para esquecer o passado, marcado por perdas e guerra. Mas, ao contrário, há 13 anos no Reino Unido, Maria Luisa é hoje uma das mais importantes líderes dos movimentos de ajuda à Moçambique.

“Aqui não falta comida para mim ou meus filhos, mas eu nunca consigo esquecer que famílias estão famintas em Moçambique”, diz a mãe de seis. Desde Manchester, onde mora, ela comanda o grupo The Smile of Hope (o sorriso da esperança), um projeto que visa aumentar a conscientização e promover a integração e a unificação das diversas culturas e patrimônios das áreas vizinhas na grande Manchester.

Com um grupo de colegas voluntários, ela trabalha para proporcionar atividade social e de lazer a pessoas de todas as idades, em particular crianças e jovens, para melhorar suas condições de vida.

Maria Luisa, que já foi dona de restaurante, hoje trabalha das 3 às 8 da manhã fazendo limpeza. Terminado o expediente, ela segue para a universidade. Faz o curso de Community and Social Care Policies, na University Preston Central of Lancaster.

Ainda encontra tempo para atuar, através do projeto The Smile of Hope, como voluntária em escolas públicas, dando uma espécie de curso, com duração de uma semana, sobre tradições e cultura africanas.

Uma das atividades consiste em mostrar às crianças que crescem com educação britânica como é possível brincar e se divertir com pouco, ou quase nada. Algo que Maria Luisa conhece bem da própria infância, e também das visitas que faz à África.

Ela esteve em Moçambique em abril, de onde trouxe a imagem de miúdos brincando com uma bola feita por eles mesmos, com papelão e corda.

“A situação não está boa por lá”, disse, uma semana após seu retorno, referindo-se aos efeitos da passagem do ciclone Idai - tempestade que deixou 468 mortos e mais de 1,5 mil feridos no país.

“Fomos para investigar por que a ajuda humanitária não tem chegado e vimos que, além dos desvios, a população é grande demais e o que recebemos não é suficiente”, conta. “Até hoje há lugares onde não se consegue chegar.”

Agora, Maria Luisa trabalha para arrecadar dinheiro suficiente para enviar um container com mantimentos e custear a ida para Moçambique no final de julho. “Queremos estar lá para receber o container e nos certificar que os mantimentos chegarão aos seus destinos.”

História e glória

A história de Maria Luisa é marcada pelas tristezas de uma infância vivida em um país em guerra. Sua família de 16 irmãos foi levada ao que chamavam “centro de reeducação”, onde ela testemunhou o brutal assassinato da irmã, que estava grávida.

Com a ajuda da Diocese de Lichinga, a família conseguiu voltar para Maputo, mas encontrou a casa ocupada. “Minha mãe pediu para uma vizinha me alojar, mas ela chegou a morar na rua.” A ida para Portugal, nos anos 1990, foi a chance de recomeço. No Algarve, ela viveu até 2006. “Mudei para o Reino Unido em busca de melhores condições para os meus filhos.”

Aqui, Maria Luisa tem o apoio e admiração da comunidade moçambicana. O que ela faz não é pouco, nem é fácil.

(Para ajudar, procure a The Smile of Hope).

The Smile of Hope

26 Knutshaw Crescent, Bolton

BL3 4SB

Tel.: 07538791331


Email: thesmileofhope@hotmail.co.uk