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Portugueses na diáspora: Alcino Gomes lança livro em Londres

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Cozido no tempo Capa e contracapa

Da Redação


No sábado 18 de maio, o livro “Cozido no Tempo”, do jornalista português Alcino Gomes Francisco, será apresentado em Londres. A publicação acaba de ser lançada com selo da Editora Oxalá, com sede na Alemanha, que tem se destacado em lançamentos de escritores portugueses na diáspora. Alcino, nascido no Porto, mora em Londres há onze anos.


"Cozido no tempo" é uma obra de auto ficção, género que vem ganhando espaço no mercado literário na última década. Reúne relatos de várias histórias reais, em um exercício de memória do autor. Escritas ao longo de quinze anos, as histórias não têm nomes reais. As pessoas envolvidas nos episódios não são identificadas.


Alcino fará duas apresentações do livro em Londres. Uma no sábado dia 11 de maio, e outra no sábado seguinte, dia 18. Ambas começam às 16h nas instalações da Monteiro Clinic a Sul de Londres (2 Clapham Rd, London SW9 0JG Oval).


Leia, a seguir, um trecho do livro


Quando ele acorda

Por Alcino Gomes Francisco



Tento fugir-lhe do bolso onde me guarda nesta parda figura de escrever. Tento correr para me esconder na ânsia de não ver o que escrevo. Peço a minha pena de degredo para me libertar da ansiedade da escrita que corre num caudal que não morre e insiste em me prender. Sonho em sair das palavras e das letras que não me deixam correr. Ele acorda como um Demónio à procura do sinónimo da próxima palavra que não quero escrever. Não consigo resistir a esta insónia que faz das letras a Amazónia onde continuo a arder. Neste absurdo, urdo a próxima letra como quem soletra uma agonia na sintonia do que escrevo na liberdade de não ter medo de continuar a escrever em segredo.


Nesta solidão que me acompanha, fabrico a manha de me esconder no que estás a ler. Com vontade de dormir sonho que estou a escrever o que não consigo ler. E a rir, sigo a esconder esta vontade de resgatar o “eu” que eu não me conheço e teço a malha desta aranha que me acorda a horda de letras que escrevo sem conseguir parar. Procuro os lábios de uma letra e uma palavra onde a meta como um coro a cantar e deixo-me sonhar, que estou ausente do que escrevo com medo de não me saber rimar. Deixo-me adivinhar que estou a dormir até este “eu” acordar.


Corro na bainha de uma cortina que afina o que vou escrever a seguir e deixo ir o verbo que faz de mim o servo de não saber resistir. Fico escravo do que escrevo e lavo o medo do meu sentir nas rimas que não consigo parir. Sinto em mim este camarim de sentir assim sem me conseguir mentir. Tento trocar as voltas que me restam e caçoam e me emprestam letras que me moam. E ele acorda em mim como um berbequim que me encanta e desanca a escrever assim.


Reclamo desta insónia que me arrasta na memória uma história que é minha e procuro o branco que aninha a letra que vem a seguir. Tento fugir para lugar nenhum, como se dentro de dois houvesse um. Suspiro um tiro de fuga no meu sossego e acerto no morcego que não me deixa dormir. Acendo mais um fumo onde durmo o relinchar do que não consigo explicar na vontade de sonhar que o que escrevo foi outro alguém a inventar. Entro no desespero da minha conta por pagar, a sonhar que pago os sonhos que sou capaz de sonhar. Procuro aqui e ali o que perdi e o que quero encontrar sem saber onde achar o desejo de amar. Procuro a luz da Lua numa vontade crua de me encontrar. Solto-me nas estrelas a ver se me consigo achar.


E ele acorda na consola que me viola a sede do espelho, como um escaravelho que me passeia e despenteia o desdém do meu sono nas letras em que me amorno. Procuro que sufoque o toque deste destino onde animo o sono que tenho mas ele insiste no desenho de mais uma letra como uma careta onde me empenho.


Dou mais um gole na vontade que me engole quando ele acorda e discorda da minha vontade de dormir. E desisto quando o vejo sorrir para a letra que vem a seguir. Fico crente e impotente da letra seguinte que vem pedinte de saber nascer para que a possas ler. Desisto de abortar o que eu quero saber. Cansado de me falar, saio a navegar no que estou a escrever. Deixo as letras aos crentes das verdades do sentir de saber que sinto as letras que estou a parir. Acendo mais uma letra a fazer luz como uma avestruz que esconde os olhos debaixo da terra que encerra o que não me quero dizer, e no centro dessa serra prego mais um prego onde enterro o meu sono por dormir. Atrevo-me a sorrir nesse alcatrão onde me dou a mão, para sozinho ser meu vizinho feito à mão como se fosse artesão do que lês mas não vês.


Saio dos meus olhos nos molhos de letras a nascer para escrever o que não consigo segurar. Esqueço-me de trabalhar e fico fechado no cadeado onde me cerco e perco o que sou obrigado a dar. Ele acorda dentro de mim e assume o comando do que desando no que escrevo. Perco o medo e dou-lhe o destino onde afino este segredo. Quero fecha-lo a tentar desalma-lo metido numa caixa onde o escondo mas ele não encaixa no laço que lhe atiro. Solta-se e toma conta de mim e leva-me assim a continuar sentado neste quadrado de uma caneta e eu perco lugar onde o meta. Rimo mais uma palavra que chama pela seguinte como quem ama o pedinte que as escreve. Encontro o lugar que não me serve e escrevo a palavra que me bebe até me conseguir perder. Cavalgo mais uma janela numa esfera que me contorna neste texto que me amorna.


Quero soltar os dedos do criativo que finjo ser mas todas as vielas me levam ao que estás a ler. Deixo cair os ombros nos escombros de mais um ponto final. Ele acorda outra vez dentro de mim a proibir-me de morrer sem escrever mais um sinal. Tento enterrá-lo no meu passado de escrita e ele solta um estalo que me grita. Tento deixá-lo na juventude para que não perturbe o meu diário e ele desfia o rosário de mais uma letra que meta na rima que cisma em nascer. Mexo os dedos sem esquecer o que ainda não está escrito e deixo as letras correr no ferro de engomar desse ponto final que estou à espera. Peço um ponto que desespera por aparecer enquanto ele brinca a aquecer o que continuo a escrever.


Sinto chegar o cansaço do abraço do final de cada texto para voltar a mim quando ele escreve a palavra fim. E ele não desiste e insiste em tomar conta de mim e continuar a escrever sem ver que estou cansado e repete que estou fadado para escrever o que sinto neste labirinto onde me quero esconder. Teimoso, dá-me mais um osso para roer, uma palavra para dissolver, um copo para beber e ordem para continuar a escrever. Vem airoso de surpresa e ocupa a minha mesa com fome de escrita. Escrevo as palavras que ele me grita de forma obediente como quem se sente sem escapatória na memória. Ele liberta mais uma história que sou escravo de escrever mesmo quando me obriga a sofrer. Ele pede-me um sorriso nas dores de um siso a nascer.


Tento empurrá-lo para o passado e deixá-lo descansado onde possa morrer e ele insiste em voltar a nascer. Desenho uma curva apertada para o tentar esquecer e ele inventa mais uma estrada por onde me possa ver. Acelero o desespero de o perder e ele segue-me até eu me render. Tento deixá-lo nas colinas e ele acaba por me encontrar nas salinas destes dedos a mexer, até torcer a minha vontade de encontrar a saudade desse passado onde a escrever aprendi a sofrer até me perder. Volto a correr para me esquecer o que ele insiste em me lembrar. E ele insiste em tolher os sonhos que não quero sonhar.


Quero deixá-lo num lugar onde possa amarrá-lo a sorrir e ele insiste em parir mais uma linha que me desalinha do que quero fazer sem ser a escrever. Toma conta de mim como se fosse um amendoim por descascar e obriga-me a lascar a próxima letra e a inventar o lugar onde a meta. Deixa-me sem sustento no lugar onde assento mais uma palavra que invento. Peço-lhe um tempo para descansar e um momento para me libertar desta vontade de escrever, mas ele conhece todos os lugares onde me sei esconder. Peço-lhe um beijo de despedida e recebo a ordem repetida de ficar neste lugar a inventar o luar que está por nascer.


Tento afastá-lo do meu lado e ele vem ao meu espelho como um evangelho onde instalo o meu penteado. Aparece suado de vontade de escrever com a promessa de ficar casado até eu morrer. Insiste e resiste em não ficar no lugar onde o quero perder. Acorda a viola onde escrevo letras por cantar e insiste em passear na ideia que as minhas entranhas me são estranhas. Sem força, deixo-me rendido neste destino de o deixar aquecer as letras que estou a escrever.


À força sou voluntário deste cenário onde me deixo viver para escrever o que não quero ler. E ele ressuscita sem morrer mais uma letra por escrever. Não me larga da palavra que me amarga de me continuar a sentir como uma puta a parir até rasgar uma vírgula a cair. Vou em mais um trago onde me amargo a tentar desistir. Volto à escola que me amola o coçar do meu queixo onde me deixo a descobrir o que escrevo, no medo que ele volte a acordar para não me deixar sonhar de como viver sem ser a escrever.


Cansado do mim que sou “eu” procuro quem me esqueceu para me esquecer de escrever e aprender a viver ao que resisto e desisto de me esquecer das palavras que visto e que não consigo ler. Insisto em aprender a esquecer do que me lembro neste Novembro que me acorda na açorda do que escrevo nas malhas do meu medo. Abro a porta a este alvoredo, como se fosse o bruxedo de uma nuvem a voar. Solto as letras no alto mar à espera que as ondas as possam casar para me libertar do que escrevo a cantar.


Tento levar para longe o que me foge a perseguir sem saber se volto a ir no canto de não saber cantar para voltar a encontrar o destino de o deixar em mim a escrever. Fico sem saber qual de nós dois sou eu e quem de nós dois bebeu e qual de nós dois escreveu o que estás a ler.