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A saudade de Portugal, cantada na Inglaterra

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Por Marta Stephens


Dois badolins, um cajón, baixo, guitarra e piano, a bela voz de Cristina Pereira Ratanji e muitas saudades. Essa é a banda TRIBVTO, formada por portugueses residentes na Inglaterra que se ocupam em reviver a música acústica da terrinha. Com influências do fado e de outras toadas tradicionais lusitanas, o grupo acaba de lançar o álbum “De Malas Aviadas” (disponível nas diferentes plataformas de streaming, como Spotify, iTunes, YouTube Music, Deezer, Google Play, entre outros). Além de Cristina, que canta e toca bandolim, compõem o grupo os músicos Paulo Pereira Ratanji (voz e guitarra), Nelson Henriques (cajon e percussão), Miguel Guedes (bandolim e melódica) e Pedro Neves (guitarra solo, baixo e piano). Como representantes da cultura lusitana na Inglaterra, eles cantam temas que falam da alma trovadora, principalmente a do imigrante português, como a saudade da família, os amores genuínos, da vida com poesia. Por e-mail, Cristina explica um pouco mais do projeto musical de TRIBVTO.

Notícias em Português - Como os músicos do grupo se conheceram?

Cristina Pereira Ratanji - Somos todos residentes no Reino Unido, alguns já vivem cá há cerca de cinco anos, oriundos de diferentes zonas de norte a sul de Portugal e quis o destino que todos nos encontrássemos numa pequena vila entre Londres e Cambridge chamada Bishop’s Stortford. A comunidade portuguesa nesta vila é forte e fruto dela nascem vários espaços públicos (cafés) onde os portugueses encontram oportunidade para matar as saudades. É num destes espaços que nós começamos a juntar para desenrolar algumas cantigas ao fim de tarde. Sem nos conhecermos previamente, juntamo-nos através da música. Mais tarde, por impossibilidade do espaço, mudamos o local para a casa da Cristina e do Paulo, onde decidimos entretanto começar este projecto, inicialmente chamado Tributo e que depois se transformou em TRIBVTO como homenagem aos nossos antepassados e à forma do português antigo.

Como a vida na Inglaterra influencia a produção artística de vocês?

A vila onde vivemos, Bishop’s Stortford, tendo um ritmo mais calmo que Londres, continua a ter fácil acesso a diferentes culturas e onde a música é bastante valorizada. Aqui sentimos que as artes são bem-vindas, incluindo as artes de outros países. Os primeiros espectáculos que demos foram só covers de músicas portuguesas e sentimos um grande apoio da comunidade local, sendo que logo no final do nosso primeiro espetáculo fomos convidados para um festival de música organizado pela National Trust. Estas formas de reconhecimento deram-nos força para apostar na música portuguesa e a compôr originais. O nosso nome surge como uma forma de colocarmos a nossa identidade na música que compomos e de fazermos homenagem aos estilos de música portugueses, enquadrando no nosso som pormenores influenciados pelo fado e pela música popular/tradicional. A vida no Reino Unido, ser emigrante, as dificuldades e indecisões, os rumos e caminhos influenciam as nossas mensagens como nas nossas músicas “Trilho” e “Talvez Sim”, e ainda no sentido de querermos mostrar a todos, não só aos portugueses, o que é sentirmo-nos portugueses no estrangeiro. Daí cantarmos em português, com sonoridades que misturam o tradicional com nova música.

A saudade de Portugal é uma inspiração?

Sem dúvida. Essa saudade faz parte de nós e como tal transparece na nossa música. Não poderia ser mais clara que no sentimento que a música “Saudade Minha” expõe. No nosso álbum “De Malas Aviadas”, quisemos integrar canções que identifiquem as nossas tradições, o nosso estilo e um pouco de nós, como emigrantes que somos. É um álbum que pretende expor sentimentos, com letras e músicas que se completam. Queremos que a nossa música seja envolvente, que transmita afecto, que tenha sentido para as pessoas, que faça despoletar emoções em cada um.

Como músicos, acreditam em uma renovação do fado enquanto manifestação artística?

A renovação artística faz parte do caminho das artes, procurar notas e sons em busca de um sentimento torna tudo tão mutável como o nosso próprio estado de espírito. O fado que temos na alma vai-se expressar de variadas formas quando compomos e isso por si já é renovação. Não se trata de moda para nós, mas é resultado do processo bastante orgânico que temos quando compomos em conjunto. Os sons saem-nos naturalmente e são influenciados pela nossa bagagem musical, experiências de vida e também influências de outros artistas.

Quem compõe as músicas no grupo?

O resultado final das músicas é consequência do trabalho de cada um de nós, pois a composição é feita de acordo com o contributo individual em cada instrumento tocado. Eu escrevo as letras, tendo sido a “Rua Abaixo” em conjunto com o Pedro. O Paulo compõe a guitarra, eu dou a melodia da voz, o Nelson a percussão, o Miguel compõe o bandolim ou melódica e o Pedro compõe o baixo, guitarra ou piano, sendo que cada um tem liberdade para dar à música um pouco de si.


Mais sobre o grupo em https:// www.youtube.com/tribvto.