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Intelectuais africanos apontam racismo em obra de Fernando Pessoa

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Pessoa chapeu

Reprodução/Wikipedia


Da Redação - A polêmica teve início quando o jornal Expresso das Ilhas, de Cabo Verde, publicou o artigo "Intelectuais angolanos contra a escolha de Fernando Pessoa para patrono de projeto da CPLP". Logo o Jornal de Angola publicou um artigo opinativo assinado por Luzia Moniz, presidente da Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana, contra a escolha de Fernando Pessoa para dar nome a um programa de intercâmbio estudantil entre países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A razão seriam fragmentos de textos atrelados à biografia de Pessoa de cunho racista.


Intelectuais angolanos, e logo também de outros países africanos, passaram a fazer campanha para rebatizar o programa, que tem estrutura semelhante ao Erasmus. Em defesa de um novo patrono, o jornal cita um texto que Fernando Pessoa escreveu quando tinha 28 anos, no qual diz que a escravatura seria ”lógica e legítima”.


A citação foi retirada de um documento do Arquivo Pessoa e é intitulado “O imperialismo de expansão tem um sentido normal”:


"A escravatura é lógica e legítima; um zulu ou um landim não representa coisa alguma de útil neste mundo. Civilizá-lo, quer religiosamente, quer de outra forma qualquer, é querer-lhe dar aquilo que ele não pode ter. O legítimo é obrigá-lo, visto que não é gente, a servir os fins da civilização. Escravizá-lo é que é lógico, o degenerado conceito igualitário, com que o cristianismo envenenou os nossos conceitos sociais, prejudicou, porém, esta lógica atitude. Povos, como o inglês, hipocritizaram o conceito, e assim conseguiram servir a civilização."


Nascido em 1888, Pessoa passou parte da infância na colônia inglesa da África do Sul. Em outro fragmento assinado por Pessoa em 1917, ele define a escravatura como “a lei da vida, e não há outra lei, porque esta tem que cumprir-se, sem revolta possível. Uns nascem escravos, e a outros a escravidão é dada". No entanto, em análise linguística do texto, nota-se que a "escravatura" a que o poeta se referia não está ligada a uma relação de dominação racial, mas sim uma "escravatura" das obrigações da vida.


"Não sei se Pessoa é ou não bom poeta. Isso pouco interessa para o caso. A minha inquietação é o uso da CPLP para branquear o pensamento de um acérrimo defensor do mais hediondo crime contra a humanidade: a escravatura", criticou Luzia Moniz.


Luiza recorda outro texto de Pessoa, escrito quando ele tinha 40 anos: "Ninguém ainda provou, por exemplo, que a abolição da escravatura fosse um bem social. Ninguém o provou, porque ninguém o pode provar. Quem nos diz que a escravatura não seja uma lei natural da vida das sociedades sãs?" No entanto, este escrito, alegadamente de 1930, continua com o poeta a pôr em causa um regime em que o Estado tem demasiado poder, propondo um regime liberal.

Reprodução

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“A minha inquietação é o uso da CPLP para branquear o pensamento de um acérrimo defensor do mais hediondo crime contra a humanidade: a escravatura", criticou Luzia Moniz


Em defesa de Pessoa

Um dos principais especialistas na obra de Fernando Pessoa, o investigador José Barreto saiu em defesa do escritor português, nas páginas do jornal O Público. Ele disse: "Como desde os anos 1980 se tem vindo a publicar muitas centenas de coisas que Pessoa nunca pensou publicar, muitos leitores simplesmente não distinguem entre o que ele deu ou pretendia dar à estampa e o que atirou simplesmente para a mala em que guardava tudo o que escrevia, mesmo certas parvoíces (acontece a todos) que rabiscava em papelinhos, eventualmente com uns copitos já bebidos. Pessoa não atirava nada fora: podia era escrever outros papelinhos a dizer o contrário do que tinha dito nos primeiros. Acontecia-lhe isso muito frequentemente."


Para José Barreto, esses textos fragmentados não passam de um exercício dialético ou retórico íntimo, ás vezes irritado, sempre provocativo. “Pessoa nunca pensou publicar essas coisas. Na maioria desses escritos (melhor seria chamar-lhes fragmentos) sobre a escravatura, Pessoa não se refere nem a negros nem a raça alguma, sublinhe-se isto bem. Ele era vincadamente classista e elitista, certamente, mas não era propriamente racista, se descontarmos alguma contaminação pela mentalidade racista mais ou menos inconsciente do ambiente em que viveu, inclusive na África do Sul."


Barreto acrescenta: "Pessoa explica que quando fala em escravatura não se está a referir literalmente ao sistema escravagista do passado, mas à 'plebe', ao operariado moderno, do qual fala quase sempre com desprezo, traumatizado como ficou pelo sindicalismo revolucionário e pelo anarquismo bombista da I República. Ele simplesmente chamava 'escravos' aos operários em geral e dizia que os sindicalistas tinham mentalidade de escravos, ou que eram 'carneiros verticais', porque se submetiam à autoridade dos seus chefes políticos sem pensarem. Daí a defender que eles deveriam ficar sempre 'escravos', porque nasceram para ser 'escravos', o passo é pequeno".