10 °C
Educação

Filosofia africana em português, e acessível para todos pela internet

|

Wanderson flor   Foto de Marconi Cristino

Para o professor Wanderson do Nascimento, difundir a base teórica da 

filosofia africana ajuda a combater o racismo


Por Marta Stephens - Um website (filosofia-africana.weebly.com) que reúne textos sobre a filosofia africana, tudo em português, fácil de acessar e aberto a todos. O projeto foi desenvolvido pelo Este site é parte da pesquisa "Colaborações entre os estudos das africanidades e o ensino de filosofia", desenvolvido pelo professor Wanderson Flor do Nascimento, na Universidade de Brasília, e tem o apoio do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação, Raça, Gênero e Sexualidades Audre Lorde - GEPERGES Audre Lorde (UFRPE/UnB-CNPq).


No ar desde 2015, o site reúne textos de diferentes fontes, alguns traduzidos pelo próprio professor Wanderson e seus alunos. Para o professor, essa é uma maneira de combater o racismo. “O racismo no Brasil acontece de muitas e sofisticadas maneiras. Uma delas é a reprodução da imagem de uma inferioridade intelectual das pessoas negras e do próprio continente africano”, diz Wanderson, que explica a seguir mais sobre o projeto.


Notícias em Português - O conteúdo do site foi todo traduzido?
Wanderson Flor do Nascimento - Há várias fontes de materiais traduzidos para o site. Há textos que foram publicados em periódicos e que têm seu acesso aberto, há textos que foram traduzidos por colegas professores e estudantes para disciplinas em diversos lugares do Brasil e, também, há textos que temos traduzido na Universidade de Brasília (estudantes e eu) em trabalhos vinculados com a oferta do componente curricular "filosofia africana", assim como em grupos de estudos. 


Quanto tempo demorou o processo de elaboração do conteúdo e site?
O site foi ao ar em 2015, mas as atividades em torno do componente curricular "filosofia africana" ocorre desde 2013. Então, pelo menos desde aí a ideia de um portal na internet que disponibilizasse esse material fez com que reuníssemos materiais.


O senhor acredita que, ao disponibilizar conteúdo sobre filosofia africana, está contribuindo para o combate ao racismo?
O racismo no Brasil acontece de muitas e sofisticadas maneiras. Uma delas é exatamente a reprodução da imagem de uma inferioridade intelectual das pessoas negras e do próprio continente africano. O pouco estudo de intelectuais negros, sobretudo advindos do continente africano, dava a impressão de que a produção intelectual negra e africana era ou inexistente ou irrelevante. 

Daí que difundir e divulgar essa produção, em sua diversidade temática e de orientações, faz mostrar que não é a inexistência que gera sua invisibilidade, mas exatamente o racismo que faz com que operemos com uma recusa do que intelectuais africanos têm produzido. E uma vez que tenhamos acesso a esse material, seremos obrigados a lê-los e justificar as razões pelas quais um conteúdo tão diverso é sumariamente excluído de nossa formação. E isso nos obriga a rever a posição do racismo em nossas maneiras de nos relacionarmos com o pensamento. 


O senhor acredita que a academia está aberta aos estudos da filosofia africana? Há preconceito também entre os estudiosos?
Embora haja um forte interesse por parte de muitos estudantes e alguns professores, há ainda uma forte resistência acadêmica, no Brasil, com relação aos estudos sobre as filosofias africanas. Embora tenhamos, desde 2003, uma lei federal que determina o ensino de conteúdos de história e cultura africana e afro-brasileira nos currículos dos ensinos fundamental e médio, de modo geral, as universidades - sobretudo as públicas - ainda não se interessaram em reformular seus currículos de modo a subsidiar a formação para o trabalho com esse conteúdo nas escolas. No caso da filosofia, isso se reproduz do mesmo modo.


Há a disciplina de filosofia africana nas universidades brasileiras?

Não há nenhuma universidade brasileira que ofereça a disciplina "filosofia africana" como componente curricular obrigatório que todo professor de filosofia em formação devesse cursar. No caso da Universidade de Brasília, que vem oferecendo a disciplina há mais tempo, ela aparece no rol de disciplinas obrigatórias dentre as quais os estudantes escolhem algumas para cursar, as chamadas "obrigatórias seletivas". Desse modo, um professor de filosofia formado na UnB pode perfeitamente se graduar sem nunca ter lido uma única linha escrita sobre o pensamento filosófico africano. E isso é uma mostra do preconceito ainda presente na academia. Supõe-se a irrelevância do pensamento africano. Mas com determinar a relevância de um conteúdo que não conhecemos? A escolha em não tê-los nos currículos já é uma mostra que esse preconceito orienta as escolhas curriculares.