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Conheça o Curumim: onde crianças praticam o português, em Londres

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Divulgação

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Por Marta Stephens - Criar os filhos longe do país de origem e, ainda assim, fazê-los fluentes em português não é fácil. Quando os pequenos começam na escola, ainda que em casa a língua oficial seja o português, é natural que eles comecem a se comunicar com mais naturalidade em inglês – afinal, esse será o idioma em que eles serão alfabetizados.


Foi com isso em mente que a paulistana Gabi Bury, mãe de Sofia (seis anos) e Luca (cinco anos), criou o Curumim, um grupo que se encontra uma vez por semana para brincar, aprender sobre a cultura brasileira e, claro, treinar a conversação.


O projeto começou em 2015, quando Gabi mudou com o marido e a filha, então com seis meses, da Nova Zelândia para Londres. “Procurei um clubinho em português, mas eram todos muito distantes da minha casa, então comecei a me aproximar de todos os brasileiros com filhos que cruzava na rua e logo estava organizando encontros semanais no parque”, conta.


Quando o inverno chegou, os encontros passaram a acontecer em um salão fechado. E, desde junho de 2018, ocorrem todos os sábados, entre 10 da manhã e meio-dia, na Goodrich Community Primary School, em East Dulwich.


São três grupos separados por idade: de 2 a 4 anos (que participam da sessão acompanhados por um responsável), de 4 a 6 anos, e de 6 a 9 anos. O programa custa de £100 a £130 por dez sessões. Cada grupo tem, no máximo, dez crianças. Naquelas duas horas de atividades, eles conversam, brincam, fazem leituras de textos e aprendem sobre tradições brasileiras. “Não queremos apenas crianças bilíngues. Queremos que eles conheçam sobre a cultura do país”, diz Gabi, que tem o apoio de outras três mães que trabalham como voluntárias no projeto.


Gabi Bury

Gabi Bury não encontrou um clubinho de português perto de casa, e criou ela mesma um grupo onde as crianças podem praticar a língua e aprender sobre tradições brasileiras


Esforço dos pais

Ainda assim, duas horas por semana não garantem que a criança será fluente em português. O grande desafio da língua como herança é justamente envolver os adultos nesse processo. “Os pais precisam estar dispostos. Sabemos que não é fácil, mas o exemplo de ouvir o português falado em casa é primordial”, explica Gabi, hoje uma feliz mãe de duas crianças bilíngues.


Ler livros, assistir filmes e insistir na comunicação em português, ainda que se faça necessária a tradução ao inglês, são algumas maneiras de manter o idioma vivo. Ainda assim, é natural que, quando as crianças estejam brincando, a comunicação entre elas aconteça em inglês. “No começo do projeto, pensei que precisávamos insistir que todos falassem português o tempo todo, mas logo entendi que isso seria um incômodo para os pequenos”, conta. “Hoje, tentamos monitorar as brincadeiras e sempre aproximá-los da língua portuguesa, mas sem fazer disso uma exigência.”


Até os quatro anos, o desenvolvimento linguístico ocorre de maneira mais fácil, mas nunca é tarde para começar. Crianças de qualquer idade podem aprender mais de um idioma com facilidade, desde que estimulados da forma correta.


Não se trata de alfabetizá-los. “Aliás, uma criança só é alfabetizada uma vez e será na língua oficial da escola. O que podemos fazer é ajudá-la a transferir o conhecimento adquirido”, explica Gabi.


Quando ainda morava na Nova Zelândia, Gabi lembra de ter conhecido poucas brasileiras, apenas três, e duas delas não falavam em português com seus filhos. Uma delas sequer recordava o idioma do seu país de origem, e culpava a mãe por não ter repassado esse conhecimento no seu tempo. Um arrependimento que pode ser evitado, afinal a língua é também um elo com a história e o passado de cada um. E pode ser uma herança.


Curumim – Português como Língua de Herança

Tel. 07510 866023

curumimlondres@gmail.com