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Do cafezal goiano para West Kensington

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“O café brasileiro não é o melhor. O Brasil é o maior produtor do planeta, mas não temos o

grão de melhor qualidade”, diz Vinny


Por Marta Barbosa


O brasileiro Vinny de Oliveira tinha só nove anos quando aprendeu a torrar café. Seu pai é dono de uma fazenda em Goiás, e ele nem lembra a idade que tinha quando provou a bebida pela primeira vez. Em novembro passado, ao lado do sócio George Thornton, ele inaugurou o café Chapter, em West Kensington. Qualquer dia da semana, você o verá por lá, servindo, provando e indicando blends de café especial com a autonomia de quem tem dedicado a vida ao tema.

Só não espere um defensor ferrenho do café brasileiro. Como provador experiente da bebida feita com grãos de muitas partes do mundo, Vinny é categórico: “o café brasileiro não é o melhor”. E explica: “O Brasil é o maior produtor do planeta, mas não temos o grão de melhor qualidade.”

Há, sem dúvida, um movimento na última década de melhoria das plantações, com um efeito no aumento de qualidade. Mas para Vinny, os melhores grãos vêm da Jamaica, onde não é feita fermentação do café antes da torrefação. No paladar, o terroir de elevadas altitudes jamaicano gera uma bebida mais ácida do que a produzida com grãos brasileiros. O café brasileiro, aliás, é reconhecido pelo seu sabor suave, com muitas notas de amêndoas e baixo amargor.

Há 18 anos vivendo em Londres, para onde veio com a mulher Cristiane para uma temporada de dois anos estudando inglês, Vinny sempre volta para a fazenda da família na época da colheita. Faz questão de dividir o que tem aprendido por aqui, e muitas de suas sugestões são aceitas e incorporadas ao negócio, fundado há 38 anos. Exemplo: foi por causa de Vinny que a colheita deixou de ser feita com máquinas, e passou a ser apenas manual.

“Meu pai entendeu as mudanças que propus porque compreendeu o sentido de um café especial”, diz Vinny, que encontrou aqui um mercado aberto e em crescimento. “Não acho que a Inglaterra ainda seja o país do chá”, diz com a concordância do sócio escocês. “Não somos mais uma nação de tomadores de chá”, afirma George. “Eu mesmo quase não tomava café há cinco, seis anos, hoje até esqueço do chá e tomo cinco xícaras de café por dia.”

Em todo caso, o cardápio da casa tem alguns chás, além de uma grande variedade de blends especiais. Vale a pena pedir o expresso clássico (£2.5), e esperar para se surpreender com o blend do dia. O Christie, por exemplo, tem 50% de grãos brasileiros, 30% das florestas de Guatemala e 20% de El Salvador. Na boca, uma acidez frutada, com notas de pêssego. Para acompanhar, pão de queijo, bolos (receitas tradicionais inglesas e um com café) e outras opções de pratos. Tem até feijoada, que aliás é o mais pedido da casa.


O café Chapter fica no 137 North End Road, W14 8UP, perto da estação West Kensington.