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O sofrimento é opcional

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MonjaCoenEm livro autobiográfico, Monja Coen fala dos hábitos prejudiciais à maneira de pensar e agir


Por Monja Coen*


“Dê pressão e receba pressão. Quanto mais pressão receber, mais pressionado, impressionado, prensado você ficará.”

“É o mundo, a vida, os outros, os acontecimentos que pressionam. Não sou eu. Não é minha mente.”

“Você não me entende. Para você, tudo é fácil. Tem amigos, família, relacionamentos. Eu sou sozinha.”

“Não sou mais capaz de me realizar.”

“Quem sou eu, afinal? Um coitado, um infeliz, um largado, uma tristeza invisível? Sou invisível! Queria ser como as outras pessoas, mas sou diferente.”

“Sou uma farsa, uma mentira. O mundo é uma farsa, uma mentira, um circo.”

“Sou ninguém, nada, um zero absoluto, uma tonta, usada e abusada.”

“Sou vítima das circunstâncias. A culpa é dos meus pais.”

“Dormir, morrer, sonhar. Quem sabe?”

“O mundo é cinzento. Houve cor algum dia?”

“Nada me estimula. A vida não tem sentido.”


Esses são depoimentos de alguns dos meus discípulos e discípulas, e também de pessoas que me escrevem, telefonam ou vêm até minha comunidade. Há os que querem desabafar e há aqueles que desejam falar apenas para confirmar suas conclusões depressivas.


São todos vítimas da doença do século. Não existe ninguém que, ao longo da vida, não tenha passado por alguma experiência de depressão, em algum nível. Eu mesma já atravessei vários momentos difíceis. E nem sempre soube que o que sentia e fazia era devido a um estado de depressão. Incomoda, perturba, dói. Mas sofrer é opcional.


O Zen Budismo nos ensina a atravessar o oceano do nascimento, da doença, da velhice e da morte no tranquilo barco da sabedoria perfeita. Pretendo apresentar aqui algumas possibilidades de travessia. Sugiro, em primeiro lugar, que deixemos um pouco de lado a rede de notícias macabras a que estamos expostos continuamente e que poluem o cérebro, abalam a mente e criam vícios – hábitos prejudiciais tanto à nossa maneira de pensar o mundo quanto de vê -lo e agir sobre ele. O excesso de informações negativas é um dos facilitadores da depressão.


Existem muitos outros. E cabe a nós buscar modos de iniciar o processo que nos desvencilhará desse emaranhado. Há boas notícias? Alguém fez algo bom nesta semana? O que aconteceu de relevante para o bem da cidade, do Estado, do país, do mundo? Quem salvou um gatinho numa árvore? Quem falou gentilmente com uma paciente no hospital? Quem sorriu sem razão a outro passageiro no trem, metrô, ônibus? Alguém devolveu o dinheiro encontrado? Você viu a lua? O céu? O sol? Escutou o pássaro? Cheirou a grama recém-cortada? Presenciou a chuva? Comeu sem culpa? Sorriu? Você se lembrou de sorrir hoje? Consegue andar? Ler? Ouvir? Falar? Pode ir ao banheiro sem precisar de ajuda? E, caso precise, tem quem o ajude? Conhece o silêncio interior? Aprecia sua própria companhia? Bebeu água e matou a sede? Viu nuvens? Estrelas? Abriu a porta? Está respirando, pensando, vivendo? Concentre -se nos aspectos mais bonitos da existência.


Novelas de sucesso, as longas, são cheias de suspense, medo, ansiedade, apegos e aversões, personagens malvados, crimes, injúrias, invejas, luxúrias. Evite -as por uma semana, tanto na televisão como em sua vida. Apego e aversão. Eis o caminho do sofrimento, segundo Xaquiamuni Buda. Mas a libertação – ou nirvana – é possível. Há um Caminho de Oito Práticas que pode levar o ser humano à tranquilidade. Mais do que isso, essas oito práticas são em si mesmas a libertação. São a manifestação do nirvana. Neste livro, quero fazer você refletir comigo e perceber que podemos optar por não sofrer. Podemos acessar a sabedoria que nos conduzirá tranquilamente e em plenitude à outra margem da vida.


O oposto da depressão não é a alegria. É vivenciar todos os estados mentais, reconhecê -los e seguir adiante no contínuo gyate gyate, hara gyate hara so gyate (indo, indo, tendo ido, tendo chegado e, ainda assim, indo).1 1 Trecho final do Sutra do Coração da Grande Sabedoria Perfeita, um dos ensinamentos de Buda.


* Trecho do livro O Sofrimento é Opcional, da Monja Coen (Bella Editora/Brasil e 20|20 Editora/ Portugal) 


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