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Cantora brasileira na lista das 100 mulheres inspiradoras da BBC

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Gabriella di Laccio, no palco em 2014: ela criou um projeto para divulgar compositoras mulheres na música erudita


Da Marta Stephens


Como faz desde 2013, a BBC revelou a lista das 100 mulheres inspiradoras deste ano. Entre elas está uma brasileira: a cantora soprano Gabriella di Laccio, que mora em Londres desde 2001, e foi considerada um “talento extraordinário” pelo maestro Sir Charles Mackerras. Ela é sócia do selo Drama Music e fundadora do projeto “Donne: Women in Music”, que promove o trabalho de mulheres compositoras.

A decisão da gaúcha de atuar a favor da diversidade de gênero na música erudita partiu de uma percepção pessoal da predominância masculina em seu meio. A maioria das peças tocadas em capitais como Londres é de autoria masculina.

Gabriella, que também tem passaporte italiano, descobriu mais de seis mil compositoras mulheres, listadas na Enciclopédia Internacional de Compositoras, escrita pelo americano A. Cohen nos anos 1980. Isso sem contar com outras tantas artistas vivas, cujos trabalhos mal chegam ao conhecimento do público.

O projeto “Donne: Women in Music” começou com o lançamento de cinco CDs, com apoio do Arts Council of England e do Conservatório Real da Escócia. Depois, a artista lançou um blog onde posta entrevistas e filmes sobre essas compositoras desconhecidas. O endereço: drama-musica.com/Donne.


A lista da BBC

A relação de mulheres inspiradoras no mundo é um projeto iniciado pela BBC depois do caso de estupro coletivo de Délhi, em 2012. Todos anos, a rede britânica elege 100 nomes que serão temas de textos e filmes produzidos nos próximos meses. A lista tem mulheres de mais de 60 países, com idades entre 15 e 94 anos. 12 delas são da América Latina, e apenas Gabriella de um país português falante.


Com a palavra, Gabriella di Laccio

Por e-mail desde o Brasil, onde cumpre agenda de shows, Gabriella falou com exclusividade ao jornal Notícias em Português.


Notícias em Português - Como ficou sabendo que estava na lista da BBC?

Gabriella di Laccio - Fui notificada sobre a nomeação por e-mail, em torno de uma semana antes da comunicação oficial da BBC World no site 100 Women.


Você acredita que listas como essa demonstram que há um novo momento nos debates da igualdade de gênero?

Acho que estamos vivendo um momento muito importante. Nas últimas décadas, as mulheres vivenciaram avanços em vários aspectos e tiveram muitas conquistas em sua luta pela igualdade. Mas chega a ser surpreendente que no século 21 tantas mulheres ainda estejam vivenciando a desigualdade - seja ela no mercado de trabalho, nos salários, no reconhecimento profissional, na representação política, no desrespeito pessoal assim como sendo vítimas de assédio. Mas acredito sim que existem muitas iniciativas de grande valor - assim como a lista da BBC 100 Women - que estão colaborando para o aumento da conscientização de que o problema existe e ao mesmo tempo valorizando o trabalho e a história de tantas mulheres inspiradoras ao nosso redor. Acho que ainda levará tempo para chegarmos a um equilíbrio ideal - lembrando também de que a desigualdade não ocorre somente com relação à diferença de gêneros. Mas cabe a cada um de nós fazer a nossa parte para inspirarmos as gerações futuras a criarem uma sociedade mais justa e com menos preconceitos.


Você sente no Brasil o mesmo reconhecimento ao seu trabalho artístico e político que aqui no Reino Unido?

Foi realmente muito especial receber a notícia oficial da nomeação da BBC durante a minha estadia aqui no Brasil para o lançamento do meu novo CD. O reconhecimento aqui tem um sabor a mais, pois eu fui a única brasileira presente na lista de 2018. No Reino Unido há um grande reconhecimento do valor artístico e político do meu trabalho, algo que é muito gratificante. Tenho a sorte de trabalhar com essa arte fantástica que é a música, que fala a língua de todos, independentemente de gênero, posição social ou cultural.


O que muda com a lista?

Fazer parte de uma lista de mulheres mais inspiradoras e influentes no mundo no ano de 2018 somente me impulsiona a seguir trabalhando com ainda mais dedicação. Como artistas, somos servos de algo muito maior do que nós. E se eu puder inspirar uma pessoa que seja, para mim, todo o esforço já será válido.