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Um carinho com gostinho de amor

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Solana 7 meses

Arquivo familiar/Cristiane Guimarães. “O peito foi, além do alimento, o principal meio de contato direto entre nós duas. O momento da calma, do fim do choro, das conversas e risadas e do olho no olho. Na verdade, é tudo mais do que isso; o vínculo é indescritível!”


( LONDRES) Cristiane Lebelem - Quando a gente olha uma mãe amamentando um filho sempre sente algo especial. É maneira mais simples e ao mesmo tempo mágica de uma mulher se sentir completa. E que mãe não duvidou que o leite pudesse realmente alimentaro seu bebê?


Dias atrás, uma mãe brasileira compartilhou pelas redes sociais um momento lindo, mas também um pouco doloroso, o desmame. Cristiane Guimarães, mãe da Solana de 3 anos, revelou a experiência de servir também de alimento para sua filha. “Quando olho pra esses 3 anos e vejo que ultrapassei a meta da amamentação prolongada, fico com sentimento de dever cumprido. Pensando na saúde dela, no reforço do sistema imunológico dela e no desenvolvimento físico e emocional”, comenta.


A maternidade foi uma escolha para a profissional do entretenimento, que quase aos 40 anos decidiu embarcar para esta maravilhosa aventura que é ser mãe. Com tudo diferente, em outro país, ela se viu em um desafio ainda maior. “É um aprendizado realmente constante e o tal ditado "padecer no paraíso" é 100% compreendido, quando se torna uma mãe”, desabafa.


Morando em Londres, e sem ajuda de parentes e amigos, numa cultura totalmente diferente da que foi criada, ela sentiu ainda mais o impacto deste desafio. A mudança na rotina foi algo que aconteceu naturalmente. E a sorte de poder estar com a filha no primeiro ano, fez com que a amamentação fosse possível por muito mais tempo do que a média, que normalmente é de 6 meses.


Então, nesses últimos 3 anos, ela se dividiu entre a volta ao trabalho e o cuidar da filha. “Me sinto uma privilegiada de poder lidar relativamente bem no dia a dia, tendo que cuidar de um serzinho e desempenhar outros papéis ao mesmo tempo”, conta. Tenho saúde e disposição e tento desempenhar, com responsabilidade e leveza, o papel de mãe. Me considero uma pessoa abençoada. Só há um problema, que não tem solução: a saudade dos parentes e amigos do Brasil”, diz.


Nem todas as crianças têm sorte de ganhar o peito da mãe por um período tão longo. Muitas mães não conseguem adaptar-se à rotina de trabalho, para outras o leite acaba muito antes, e tem ainda àquelas mães que por desconhecimento ou crença de que outros alimentos sustentam mais, acabam deixando de lado a amamentação muito mais cedo.

Os pediatras do mundo todo recomendam que pelo menos nos primeiros meses de vida, o bebê seja totalmente alimentado com o leite materno. Que além de matar a fome e a sede, também acalma e faz um verdadeiro milagre emocional aos pequenos.


Cristiane conta que para Solana não houve qualquer limitação, “foi livre demanda desde o nascimento, sem regras. Ela não tinha hora certa, nem pausa, para mamar. Era quando ela quisesse, sempre, sem a interferência da chupeta e da mamadeira, o peito foi, além do alimento, o principal meio de contato direto entre nós duas. O momento da calma, do fim do choro, das conversas e risadas e do olho no olho. Na verdade, é tudo mais do que isso; o vínculo é indescritível!



2 anos e 3 meses, agradecimento pós mamada

Arquivo familiar/Cristiane e Solana 


E quando é a hora parar de amamentar?


Muitos especialistas defendem que não tem hora certa para parar, cada mãe deve perceber o momento mais adequado. Fizemos um bate-papo com Cristiane e Solana para falar sobre esta etapa da vida delas. Acompanhe.


NeP - Quando decidiu que era hora de interromper?


Uns dois/três meses antes do fim do desmame, eu já estava começando a ter vontade de parar, mas sabia que poderia ser traumático tirar de repente. Pesquisei alguns blogs e consultei algumas amigas que já tinham passado pelo processo do desmame com seus filhos.


Então, psicologicamente, eu já estava me preparando. Mas estava respeitando o tempo dela...
Comecei a querer entender melhor sobre o "desmame gentil", que vc vai tirando aos poucos, substituindo as mamadas por brincadeiras ou algum tipo de "distração", sem causar traumas de choros ou pirraças... Mas, enfim, no meu caso, foi mais "tranquilo" do que imaginei.


No fim de janeiro deste ano, ela ficou com a garganta irritada e, de repente, não quis mais mamar. E tb não quis comer nem beber nada, por uns 3 a 4 dias. Só queria água. Levamos ao GP, mas realmente era uma irritação leve, sem precisar intervir com antibióticos nem outro medicamento. Foram uns 4 dias difíceis, pq queria alimentá-la de alguma forma e ela não aceitava. Mas, no fim, não foi nada preocupante.


Quando ela começou a melhorar, ela veio imediatamente para o peito. Foi nesse momento que veio o primeiro bloqueio: falei pra ela que o mamá acabou e que não tinha mais como mamar... Ela deu uma reclamada de leve, mas não insistiu mais no dia... E nos dias seguintes foram assim tb: ela pedia, eu falava que não tinha mais, ela reclamava um pouquinho, mas logo logo esquecia... Se entretia com outras coisas, rapidamente. Ela não ficou enjoada, não chorou, não foi insistentemente "chata".


Não que desejamos que os filhos fiquem doentes, claro! Nunca!! Mas, no meu caso, essa situação "casou" com o processo do desmame natural. Pq, o desmame iniciou com a recusa dela e não com a minha tentativa de tirar. Se não fosse por esse episódio, talvez eu tivesse amamentado até hj, tentando já introduzir o desmame gentil.


NeP - Como você se sente agora?


Cristiane - Sensação de dever cumprido, lindamente! Tive diabetes gestacional e queria ter parto normal. Passei pelo processo da indução e por 3 dias tentei, mas não consegui. Indo pra cesária necessária, falei pra mim mesma: "não consegui o parto normal, mas a amamentação, eu vou!" E foi assim desde as primeiras horas pós-nascimento. Claro que os primeiros dias foram ruins, pq o corpo se transforma totalmente... Muita dor, cansaço e indisposição. É uma adaptação. Mas eu sabia que tudo era passageiro. E foi. Depois de uns 15 dias, eu já estava amamentando sem o menor desconforto. A partir daí, foi só prazer! 


Pesquisei sobre a importância da amamentação exclusiva, até os 6 meses. Com 6 meses, a levei na nutricionista, pra fazer uma introdução alimentar de forma mais monitorada e assim foi: Ela começou a se alimentar bem e normalmente, mas sem dispensar o peito. E nunca dei nenhum leite em fórmula, já que o meu sempre bastou pras necessidades dela. Com isso, resolvi estimular a amentação prolongada por até 2 anos, cujos benefícios são reconhecidos e fortemente divulgados pela Organização Mundial da Saúde. Fui além! Foram 3 anos. Então, sim, me sinto como "quem seguiu a lição direitinho". Estou sentido falta, confesso... Mas estou feliz pelo desfecho tranquilo.


NeP - Houve orientação médica?


Cristiane - Não. Na verdade houve para estimular o desmame. Quando a levei no pediatra em outubro passado, ele se "espantou" quando falei que ainda amamentava. Disse que já "não precisava mais". Contudo, isso não interferiu na minha decisão. Foi, literalmente, entrar por um ouvido e sair pelo outro.


NeP - O que você recomenda da experiência de vocês duas?


Cristiane - Recomendo que, se vc, mamãe/futura mamãe quiser seguir com a amamentação exclusiva e depois a complementar e a prolongada, VÁ EM FRENTE! Obstáculos serão encontrados, sim. Mas, a recompensa por essa troca entre vc e bebê é tão prazerosa, cheia de amor e afeto, que não tem preço. Fica guardado na memória! Além de ser um momento único entre vcs. É realmente maravilhoso. Sem contar que leite materno é de graça e não dá trabalho para preparar.


Pesquisem sobre o assunto, busquem apoios e/ou informações de grupos de mulheres que desenvolvem trabalhos com a amamentação ou simplesmente, grupos de apoio, mesmo que virtualmente. Ajudam muito! Tem um blog e página no facebook, a Maezona, da Thaís Braga, que dá dicas bem legais e interage bastante com sua rede. E, nesse meio tempo tb conheci a Carol que trabalha com um grupo de apoio para lactantes. Ela atende, pessoalmente e gratuitamente, no espaço Milk Bar, aqui em Londres. Fantástico! São trabalhos bem legais das duas, que estimulam o processo da amamentação e o espaço da maternidade em si. 


Não dê ouvidos às pessoas que falam que "é um absurdo essa criança tão grande mamar". Esse tipo de "conselho" inconveniente será, muitas vezes, repetitivos. A decisão é somente sua. Converse com os mais próximos sobre a importância do apoio deles e de respeitar a sua opção da amamentação exclusiva e/ou prolongada. A compreensão, o estímulo e apoio são fundamentais.


Por fim, eu gostaria de deixar claro que, as minhas recomendações são a partir de pesquisas feitas sobre a importância da amamentação prolongada, para o desenvolvimento físico e emocional do bebê, e tb, da minha experiência com essa temática. Logo, outras mamães que não seguiram e as que não querem seguir a "cartilha" da amamentação prolongada, não devem se sentir culpadas ou julgadas. Cada mãe tem sua individualidade, sua vivência e devem ser respeitadas. Todas as mamães devem ser informadas sobre a importância do aleitamento materno sim, porém, respeitadas em suas decisões.



E do jeitinho dela, Solana também dá a sua opinião...



Tirada hj

Solana toda serelepe, fala sobre o "mamá"


NeP – Você gosta de mamar?
Solana - "Mamá é bom. Mamá é da neném." (apontando o dedinho para o peito, depois apalpando).


NeP - Como foi quando a mamãe disse que era hora de parar de mamar?

Cristiane & Solana - Ela não tem vocabulário suficiente para manter uma conversa longa. Então, a mamãe, ajuda nas respostas.

Solana não soube responder. Mas Cristiane conta que ela ficou levemente desapontada no início. Pediu "mamá" algumas vezes. E, agora, pegou o hábito de dar beijinho no meu peito, todo dia. Acho que é uma forma de estar "perto do mamá dela".


NeP - E quanto perguntamos qual é o momento que mais gosta de estar com a mamãe? A resposta vem da união do sentimento das duas.

C &S - O momento que ela mais gosta é quando brincamos de correr e de se esconder e de cantar musiquinhas. Faço isso quase que diariamente. Ela sempre me beija muito nessas horas. Depois das brincadeiras, ela fala: "abraço, mamãe" e me abraça bem forte com vários beijinhos. E, na hora de dormir, ela adora "ler" livrinhos e sempre se aconchega no meu colo, mesmo com soninho. É uma delícia!



Foto cristiane

Facebook Cristiane Guimarães/ A experiência do desmame compartilhada na rede social



A amamentação por si só é um grande desafio para a mulher

Por Carolina Andrade

www.aboutmums.com.br



É preciso uma rede de apoio e muita vontade. Para a amamentação prolongada é necessário tudo isso e mais uma pitada de bravura e coragem. A começar pela nomenclatura, muitos chamam de amamentação prolongada, que já denota uma coisa demorada, que já deveria ter acabado, por isso prefiro utilizar amamentação continuada. Não há muita literatura sobre amamentação continuada. A Organização Mundial de Saúde fala em amamentação exclusiva por 6 meses e complementar em até, pelo menos, 2 anos. Seguindo esta orientação a amamentação continuada é qualquer idade superior a 2 anos. Mas culturalmente falando podemos considerar a partir de 1 ano a amamentação como sendo prolongada. Muitas vezes há a intenção, pela parte da mãe, de fazer a amamentação continuada, mas por falta de apoio, inclusive da própria família e por conta de uma sociedade taxativa, muitas deixam de lado esse desejo. Dados da UNICEF revelam que, no segundo ano de vida, 500 ml de leite materno fornece 95% das necessidades de vitamina C, 45% das de vitamina A, 38% das de proteína e 31% do total de energia de que uma criança precisa diariamente. Outro benefício da amamentação continuada é o fortalecimento do sistema imunológico. De acordo com a OMS, estudos mostraram que crianças não amamentadas no segundo ano de vida têm duas vezes mais chance de morrer devido a doenças infecciosas se comparadas a crianças submetidas à amamentação prolongada. Há, também, o lado psicológico do benefício da amamentação continuada, tanto para a mãe quanto para a criança, porém não existem muitos estudos sobre o assunto, os poucos que tem apresentam resultados interessantes sobre a percepção cognitiva e emocional da criança, sempre tendo um resultado mais elevado. Então, mamães que querem amamentar continuadamente, o façam. Sem medo, com conhecimento do que estão fazendo e, sempre, com muito amor!



https://maezonanoblog.com

O blog da Thaís Braga é um lugar cheio de conteúdo interessante. Ela também mora em Londres e consegue dar boas dicas para as mamães.

Ela tem um video, onde relata sobre o desmame noturno (praquelas que querem começar o desmame, pela madrugada): https://www.youtube.com/watch?v=uSWzIeF5xVQ


A Organização Mundial para Saúde fala sobre amamentação também em português: http://www.who.int/eportuguese/countries/bra/pt/